Estou escrevendo sobre O Quarto de Jack meses depois de seu lançamento aqui no Brasil por dois motivos. O primeiro é que pouca gente viu no cinema e esse filme merece mais atenção. O segundo motivo é que ele vai para o Netflix (dizem que sai mês que vem) e para as TVs a cabo (ainda para compra ou aluguel). Agora, me deparo com um problema ao escrever sobre O Quarto de Jack. Mais do que outros longas-metragens, em relação a esse aqui não se pode revelar muito sobre a história. É essencial que ele nos surpreenda. E a razão disto é que, podendo ter se tornado facilmente um filme de terror ou um drama melodramático, O Quarto não é nenhum dos dois. Na verdade, é difícil classificá-lo – mesmo que em geral seja taxado de drama para fins comerciais (como o divulgariam sem gênero definido?).

Portanto, vou fazer meu comentário tentando não contar muito do que acontece. Pelo menos, não muito mais do que a sinopse traz. Só isso não está no sumário: existem dois segmentos distintos nesta película. Um é continuação do outro, mas cada tem um tom diferente e, voltando à questão gênero, cada segmento poderia ser classificado em um tipo diverso do outro, o que, como escrevi acima, torna o longa-metragem de difícil classificação. De qualquer forma, ambos são muito bem levados.
 
Mas não me entendam mal: não existe separação por capítulos nem nada disso e um dos méritos do diretor é fazer com que essa transição ocorra naturalmente, sem atrapalhar o fluir do que está sendo contado. Jack é uma criança cheia de vida que é cuidado por sua mãe. Logo vemos que os dois são muito próximos. A mãe cuida dele com carinho, como toda progenitora que se preze. E eles inventam jogos, ela cozinha para ele, tudo muito trivial. Acontece que a vida deles está muito longe de uma vida típica. Eles estão trancados num minúsculo quarto sem janelas e apenas uma pequena claraboia é a visão que têm do mundo exterior – só que, sendo uma claraboia, que fica, por definição, no teto, eles só veem o céu.

Ela se chama Joy (alegria em inglês. Ironia óbvia) e ele Jack, o menino do título. Eles são prisioneiros, vivem em cativeiro. São vítimas de um homem chamado Old Nick. Old Nick é o pai de Jack e, como a criança tem 5 anos de idade (ficamos sabendo), concluímos que Joy está lá há muito tempo. Pode parecer que contei muito, mas tudo isso está na maioria das sinopses. E existem muito mais coisas que acontecem nesse quarto – algumas sutis, outras não. Então, garanto que não escrevi “spoilers”.

O filme suscita questões complexas. O quarto em que vivem, mesmo sendo um cárcere, é um ambiente (não totalmente) controlado. Um lugar que a pessoa pode chamar de seu, onde o mundo, essa coisa enorme e complexa, não vai te afetar. Você está a salvo dos perigos lá de fora, que são inúmeros. Encarar a liberdade, nesse caso, pode ser assustador. Mais: quando o indivíduo está à mercê de outro, esse indivíduo não tem livre-arbítrio. Assim, outro ponto suscitado é: o livre-arbítrio é também responsabilidade, portanto, um fardo que, dependendo do caso, pode ser pesado demais.

A atriz que interpreta Joy (Brie Larson) levou merecidamente o Oscar. O menino que faz Jack (Jacob Trembley) foi injustiçado no prêmio, porque está ótimo. Goste-se ou não, O Quarto de Jack é impactante sem ser chato, o que é sempre importante.

*Frederico Ribeiro é escritor e jornalista. Cinéfilo e cineasta. Uma crítica não é uma verdade absoluta, mas deve ser uma opinião isenta. E-mail: fredericoribeiro@yahoo.com