​Tom Cruise, um senhor de cinquenta e poucos, não quer largar o osso. Desde que se tornou um superstar em “Top Gun: Ases Indomáveis”, em 1986, ele tenta se manter lá no topo. Por um tempo, no fim dos anos 1980 e meados dos anos 1990, Tom estava mesmo onde sempre quis. Era provavelmente a maior estrela de cinema da época, carregando nas costas abacaxis tipo “Dias de Trovão” e “Um Sonho Distante”, entre outros, e também fazendo bons filmes como “Missão Impossível”, “A Firma”, “Jerry Maguire” etc.

Meu ponto é: independente da qualidade do produto, o nome Tom Cruise era garantia de sucesso comercial. Mas aí chegou a virada do milênio e nem tudo que ele tocava se tornava ouro. Agora, em 2016, mesmo 30 anos (!) depois do estrondoso sucesso de “Top Gun”, Cruise parece querer reviver o mesmo personagem do mocinho daquele filme. Só que ele não é mais mocinho...

Em “Jack Reacher: Sem Retorno” existe o apelo universal do filho pródigo, aquele que retorna depois de abandonar a casa. Apelo, em termos de ‘heroicização’ (pensem: todo herói tem que ser admirado. Nós temos que querer ser ele), maximizado pelo fato de que apesar de ser um ex-militar respeitado pelos militares (tem todas as medalhas de honra possíveis na defesa de seu país), com toda a disciplina e habilidades de um, ele é um sujeito que faz o quer, é livre, não tem residência fixa etc. Faz o que quer, mas de vez em quando tem que sair de sua escolha de errante, de nômade, para fazer o correto. Esse “correto” é feito consertando o errado cometido por gente do sistema no qual integrou tão fielmente. Daí a metáfora do filho pródigo: ele volta a seu meio, volta para “os seus”, sua casa (onde alguns desses foram corrompidos por grandes corporações, por políticos, ou seja, os suspeitos de sempre).

Portanto, Jack Reacher, o personagem, de certa forma, apesar de sua vida aparentemente de anarquista, é um defensor das instituições. Ele só vai contra os corruptos do sistema, nunca contra o sistema. Ele, no fundo, é um militar de coração que não tolera malfeitos. Aliás, ele abandonou a carreira porque descobriu a corrupção de seus superiores. Temos aqui um herói certinho (não, nem todos os heróis são certinhos). Diferente de outro personagem, Jason Bourne, de outra franquia de blockbusters, a quem o sistema manipulou e destruiu a vida e não deixa em paz (e por isso ele odeia esse sistema, quer ficar longe, quer destruí-lo…), Reacher quer colocar as coisas em ordem.

Comparei os dois personagens menos por conta do subtexto político do que da qualidade da ação desses dois filmes do mesmo gênero. Jack Reacher é bom de briga, mas não é um Jason Bourne. Sendo justo, nem Bourne é mais Bourne. Quem viu o último e fraco filme da série que o diga. E tem um problema no modo como contam a história. Cruise bem que tenta, gasta suas energias e, sendo justo com o ator veterano, nem é a idade que atrapalha, mas o desenrolar da trama não flui bem. Na verdade, o ritmo é um tanto paquidérmico (no sentido de desajeitado) e olha que fui ao cinema tentando gostar do filme, porque o primeiro “Jack Reacher” (2012) é muito bom. Não deu. Nem com boa vontade.

*Frederico Ribeiro é escritor e jornalista. Cinéfilo e cineasta. Uma crítica não é uma verdade absoluta, mas deve ser uma opinião isenta. E-mail: fredericoribeiro@yahoo.com.

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