É covardia comparar a maioria dos filmes a Fargo, de 1996. Esse é uma obra-prima. Para quem não assistiu: demorou. Uma ressalva. Esse filme faz parte de um subgênero chamado “comédia de erros”. Na verdade, o mais correto seria “tragicomédia de erros”. Tudo dá errado para os personagens, menos a policial grávida. É como se tentassem provar a veracidade da Lei de Murphy, aquela que diz que: Se alguma coisa pode dar errada, dará. E mais, dará errada da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Mas esse é um longa metragem que apesar de privar o espectador de quase qualquer catarse ou final feliz, se preferirem, entretém e é impecável na execução e no texto, tudo conduzido pelos irmãos Coen

Fargo é uma cidade na Dakota do Norte e, acreditem em mim, fica no meio do nada. O estado é enorme e também é um grande nada esparsamente habitado. A cidade que dá nome à obra, portanto, é encravada nesse grande nada. O inverno lá dura seis meses e, durante essa temporada, esse nada é um nada congelado. Literalmente. A neve não derrete. Tudo branco. O próprio nome da localidade, Fargo, embute um sentido que escapa à maioria. Far-Go. Algo que você pode traduzir como: vai longe, mas sem um rumo para chegar. Adiante na metáfora: lugar inóspito. Mais adiante: onde alguém perdeu as botas.

Então, quando fiquei sabendo que existe um seriado que se chama “Fargo”, nem dei atenção, pensando que era só uma exploração do sucesso, mesmo que relativo, do filme, tentando atrair um nicho mais ligado a filmes cult, coisa assim. Estava enganado. Os irmãos Coen, do filme, estão na produção, descobri, o que foi um sinal positivo. Decidi enfrentar.

Você condensa muita coisa que quer dizer em uma hora e quarenta de um filme. Em uma série de dez episódios, você tem algo em torno de nove horas para contar uma história. O efeito é o oposto: a intensidade é diluída, porque você tem que cumprir um cronograma estendido. Isso, no final das contas, é o que difere arte cinematográfica de televisão. Ou diferia.

Acontece que é o dinheiro dos estúdios que paga os filmes, portanto, o cinema, sendo empreendimento (negócio), também tem o mesmo objetivo: lucro. Então, esse meio também tem suas limitações por causa da demografia dos espectadores. Enquanto o pessoal que escreve para TV está tendo mais liberdade com os roteiros. Os multiplex atraem as pessoas mais jovens, os adolescentes e as crianças. E quem já saiu da puberdade às vezes procura algo mais maduro.

Fargo, a série, entrega o que ao nome de peso dele pede. Me surpreendeu. Irregular como não poderia não ser (a primeira temporada, a qual assisti), o resultado é que consegue a tensão curiosa que te coloca com o interesse de seguir vendo. Com a vastidão gelada das imagens e, mais ainda, no sotaque, tenta-se recriar um provincianismo que é como um ponto num mapa de GPS para quem conhece a região, o mesmo tipo de cenário do filme. O ‘punch’, o diferencial da ideia do filme, que é o mesmo da série, é o contraste entre a banalidade entediante do cotidiano pacato, toda a gente com comportamento cortês, e a repentina mudança quando chega o inesperado ameaçador, pegando de surpresa os seres humanos, e que revelam um lado obscuro (mau mesmo ou no mínimo calculista) dentro de qualquer pessoa. Quando acuados, agimos ainda sob instinto animalesco.

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A série adota o formato de True Detective (um dia ainda escrevo a respeito...). Cada temporada tem uma história que encerra, fecha, depois dos episódios da mesma (essa tem dez). Não fica parecendo uma novela (nada contra quem gosta de novelas) nas quais o inesperado não é inesperado, é previsível. Nas novelas, a trama se reabastece dependendo da audiência e pode ir se alongando sem fim com os roteiros cada vez mais improvisados e que, às vezes dá certo, às vezes não, mas que te faz uma espécie de cativo para um enredo que, no geral, dá voltas em torno de si até que se esgotem os artifícios dos roteiristas e, principalmente, que caia a audiência. Sem ela, nada feito. Passam para próxima (e isso vale para novelas brasileiras e a maioria das séries americanas). Nesse formato, de Fargo, cada temporada tem uma história independente, aí tem que fechar e ponto.

*Frederico Ribeiro é escritor e jornalista. Cinéfilo e cineasta. Uma crítica não é uma verdade absoluta, mas deve ser uma opinião isenta. E-mail: fredericoribeiro@yahoo.com.