A curitibana Juliana Cortes lançou dois CDs que merecem atenção. Invento significa o ato de inventar e aquilo que se inventou. Gris, do verso “uma promessa gris distraindo a tarde/ uma gota de azul suspensa no ar”, é uma expectativa. A canção Germinal, de Dany López, lembra o romance de Émile Zola, mas envereda por caminhos férteis.
 
Germinal dialoga com Circular 102, de Leo Minax e Chico Amaral (“qualquer coisa nova tá velha/ qualquer coisa antiga tá nova/ feito brasa de uma centelha/ ou cinza que se renova”). Juliana Cortes brinca na passagem da palavra para aquilo que é indizível. Como intérprete que não sublinha o que canta com o excesso da técnica, ela pratica o exercício da escolha com uma sensibilidade que é fruto de uma inteligência dinâmica.
 
Alguém que abre dois discos valendo-se de composições de Vitor Ramil é alguém preocupado com a qualidade do material que será moldado pela sua voz.
 
A característica monocromática das capas de Invento e Gris, transmudando-se do escuro para o claro, da migração do outono para o sorriso tímido, indica uma artista que permanece atenta aos detalhes da sua obra. O que ela entrega é beleza. Sob a produção de Fred Teixeira em Invento e Dante Ozzetti em Gris.
 
Se o segundo tem um acabamento mais refinado, o primeiro não é menos atraente, com a percussão brilhante nas mãos de Vina Lacerda, esboço que recebeu as pinceladas de um mestre na estética do frio. Porque o símbolo de Juliana Cortes é uma dama, elegante e misteriosa, que pisa em folhas secas, nas calçadas brasileiras, argentinas e uruguaias, conjugando melodias temperadas a violoncelo, piano e bandoneon.
 
As presenças de Vitor em O Velho Leon e Natália em Coyoacán, dele e de Paulo Leminski, de um sussurrante Arrigo Barnabé em O Mal, dele e de Dante, de Paulinho Moska na sinuosa Mismo, de Minax e Estrela Leminski, fora autorias de Carlos Careqa, Maurício Pereira e Luiz Tatit, deixam claro que Juliana Torres aguarda os convidados com biscoitos finos. E você, tem fome de quê?
 
A capa do terceiro CD da carioca Monique Kessous representa uma explosão de cores e sugestões, de fauna e flora, de símbolos e objetos, de misticismo e fantasia. Não por acaso, o nome do disco é Dentro de Mim Cabe o Mundo. Livre associação, talvez, com a multiplicidade de poetas e existências que fervilhavam na alma de Fernando Pessoa.
 
O encarte vibrante e a ficha técnica, para manter a coerência, abraçam uma lista enorme de colaboradores. Monique Kessous atraiu Ney Matogrosso para uma canção que ela fez com Chico César, Meu Papo É Reto. De Paulinho Moska, ela canta Por Causa do Seu Pensamento, com o próprio à guitarra e Jesse Harris ao violão. O Círculo, de Kevin Johansen, numa versão de Moska, conta com a kora de Mamadou Diabaté, do Mali. Se não é impressionante, é significativo.
 
Monique Kessous assume suas composições. Seu parceiro mais constante é seu irmão, Denny, que desfila violão e guitarra numa banda multifacetada, que admite Davi Moraes, Alberto Continentino, Jessé Sadoc, Stéphane San Juan, Pedro Sá, Domenico Lancelotti, Dadi, Marcelo Callado, Daniel Jobim, Lia Sabugosa, Silvia Machete, Sacha Amback, num efeito caleidoscópico, entre vários outros.
 
Monique Kessous produziu Dentro de Mim Cabe o Mundo com auxílio de Berna Ceppas. São 13 faixas que poderiam ser 12. A alegria de Todo Mundo Quer encerraria os trabalhos de maneira eficaz. Espiral, em que pese ser uma parceria com João Cavalcanti, desce um degrau no entusiasmo. Mas a lei é deixar fluir.
 
Monique Kessous é uma cantora da sensualidade, da pele em contato com a pele, dos beijos, das noites sem fim e, claro, das ilusões e despedidas, das fugas e desencontros. O que poderia haver de drama e tragédia neste repertório é substituído por uma abordagem leve e suave, de modelagens pop bordadas com atenção e carinho. Eu Sem Você e Seja Agora, de Pedro da Silva Martins, são exemplos delicados.
 
Se você acha que Monique Kessous limita-se em imitar Marisa Monte, você perde a oportunidade de se deliciar com acepipes e quitutes.
 
*Adalto Alves estudou Filosofia, trabalha como jornalista, mas gosta mesmo de Literatura. "Como ninguém me paga somente para ler, eu tenho que escrever", diz ele. Essa mania de falar sobre música atravessa inúmeras redações e, qualquer dia, vai acabar em samba. Conheça também adaltoalves.wordpress.com.