Quando se fala de sexo, tudo é natural, mas apenas na teoria. Na prática, o constrangimento fala mais alto, apesar de toda a naturalidade que deveria envolver o assunto. Ou seja, o sexo se torna natural apenas na ação em si. Todo mundo faz, mas nem todo mundo fica à vontade para falar sobre, ler sobre ou até mesmo acompanhar as novidades do assunto. Principalmente as mulheres. Pelo menos 80% de nós nos sentimos constrangidas ao falar sobre sexo ou debater o assunto. Imagine então assumir que assiste pornografia ou que aprecia a arte erótica. Mas o que muitas pessoas não sabem é que há muito tempo artistas usam o sexo e o erotismo como objeto de inspiração para as suas criações, resultando em obras lindas e interessantes.

Um exemplo é Auguste Rodin (1840 - 1917), escultor francês que criou várias esculturas sobre sexo e nudez, incluindo a sua obra de arte mais aclamada: "O Beijo". Rodin era contra qualquer tabu sobre sexo e chegou a ser obcecado pelo erotismo, esculpindo várias e várias peças com essa temática. Já era liberalista em sua época, pois explorava em suas obras de arte a homossexualidade feminina e a masturbação. Vários outros artistas também usaram o erotismo de forma geral em suas obras, como por exemplo: Leonardo da Vinci, Salvador Dali, Auguste Renoir, Gustav Klimt e Pablo Picasso. Ao longo dos anos, o erotismo se tornou tão interessante e visado no mundo artístico que já existe até um parque, batizado como Jeju Loveland, na Coréia do Sul, com várias esculturas e obras de arte que abordam a nudez. São no total 140 esculturas que foram criadas, juntamente com o conceito do parque, por 20 artistas da Hongik University of Seul.

Nas redes sociais, o erotismo também é bastante explorado. Existem várias e várias contas de artistas anônimos e não-anônimos que publicam, em seus perfis, fotos e desenhos de suas criações pessoais acerca da nudez, do sexo e do erotismo de forma geral. Uma das contas mais famosas pertence ao artista espanhol Pachu Torres, 30 anos. O desenho publicado acima foi criado por ele exclusivamente para este texto. Ele também conversou comigo sobre o seu trabalho e sobre como o sexo e a arte andam lado a lado. Confira:

Pachu, você me contou que desenha desde a adolescente. Na época provavelmente você não havia tido muitas experiências sexuais e usava sua imaginação como inspiração. E hoje, adulto e maduro, quais são suas bases de inspiração para suas criações?

A verdade é que comecei a ter relações sexuais aos 14 anos de uma maneira muito diferente. Ela era bem mais velha e foi através dela que comecei a me interessar por mulheres mais velhas e mais experientes. Acho que isso contribuiu para que hoje eu seja como sou: as pessoas com as quais estive, sempre foram muito sexuais, muito mentes abertas e muito dispostas a todo tipo de fantasias. Sendo assim, a inspiração de minhas ilustrações sempre foi a minha própria vida. Uso um pouco de exibicionismo e o prazer de mostrar o sexo através de tintas e cores.

Para você, qual é o maior elo entre o sexo e a arte? Acha possível transformar tudo relacionado ao sexo, até as parafilias mais bizarras, em arte através de seus desenhos e criações, tal quais outros artistas também podem fazê-lo, ou acha que existe algum limite entre a arte e a sexualidade?

Os limites, como sempre, são uma imposição cultural. A arte deveria estar à parte de qualquer barreira cultural ou ideológica. Um artista não deve se limitar a fazer algo menos explícito por medo do que vão dizer ou se é ou não politicamente correto. Um artista reflete a vida através de seus próprios olhos, com suas coisas boas ou más, através de humor, erotismo ou o que ele desejar. No meu caso, exceto pela extrema censura do Instagram, que já deletou várias contas minhas, eu não tenho nenhum problema.

Qual é a aceitação feminina em relação ao seu trabalho? Você encontra dificuldades em aprovação feminina pelo trabalho que desempenha ou as mulheres estão mais liberais devido ao feminismo?

Meu trabalho, por incrível que pareça, tem maior recepção do público feminino. E me refiro às mulheres do mundo todo. Se qualquer pessoa observar minhas redes sociais, verá que pelo menos 80% do meu público são compostos por mulheres e com comentários sempre positivos. Muitas me escrevem mensagens privadas para me agradecer pelas publicações e até para me contar os sentimentos causados nelas por minhas obras. Algumas até pedem para serem protagonistas de minhas fantasias e desenhadas por mim. Meus desenhos não são machistas porque eu não sou um. Apoio o feminismo e a igualdade entre homens e mulheres.

Qual é o maior obstáculo que você, como artista que foca no erotismo, acha que o mundo encontra em explicitar o sexo de forma natural, tendo em vista que o Instagram deleta várias de suas criações através de denúncias pelo simples fato de conter nudez nos desenhos?

Acho uma vergonha que em pleno século 21 ainda tenhamos que ocultar ou censurar o corpo feminino. Não podemos ser explícitos. E não faz sentido. É culpa do artista publicar imagens eróticas ou culpa dos pais que permitem que seus filhos de 12 anos acessem a qualquer site que quiserem? A solução não é censurar o criador e sim limitar o acesso de menores de idades a certos sites.

O que você aconselha para as mulheres que sofrem preconceito por assumirem gostar de sexo e erotismo, por usarem o corpo como ferramenta de trabalho, seja como profissional do sexo ou apenas modelo erótica e por estarem lutando pela sua liberdade de expressão e sexual?

Parece que é um crime a mulher gostar de sexo ou falar abertamente sobre o assunto. Infelizmente, arrastamos uma grande carga cultural contra a mulher, seu corpo e seu sexo. Mas ela não deve se importar com isso, ela deve se sentir livre e desfrutar de seu próprio corpo e a sociedade deve aprender a respeitar isso. O sexo é algo muito bom para não ser tratado com o devido respeito. Respeito que une os casais, sejam hétero ou homossexuais. Eu creio que esse seja o nível mais alto de intimidade e erotismo: o respeito de fazer o que a outra pessoa gosta sem tabus e sem medos.

O erotismo e a arte existem um sem o outro, mas desde a antiguidade os artistas já previam que juntos formariam uma dupla interessante. Pachu é um desses exemplos que considera o sexo algo artístico, além de toda a sua naturalidade. Sexo é natural, assim sendo, acaba se tornando cultural também. Leia mais sobre o assunto, pesquise sobre isso. Existem várias leituras interessantes acerca do tema, várias esculturas que podem ser pesquisadas e vistas pelas internet e volta e meia existem exposições culturais nas quais algumas criações são eróticas. Aproveitem!

"O sexo é algo muito bom para não ser tratado com o devido respeito. O respeito que une os casais e o sexo: respeito ao ponto de querer fazer a outra pessoa gozar!" - Pachu Torres, 2016.

*Bianca Fonseca. 1992. Goiânia/Brasília. Auxiliar de Autópsia. Vampira. Graduada em Segurança Pública. Sexóloga nas horas vagas. Não disponível no mercado. Mortalmente Ariana.