“Vou contar uma história
Que aconteceu comigo
Mais cedo ou mais tarde
Pode acontecer contigo

Me chamaram pra uma igreja
Achei que era bacana
Pra minha surpresa
Só falavam língua estranha

Oudri, kanda, larrai
Ou-ou-oudri, kanda, larrai”

Os versos acima são de autoria do MC Suave, que desde o começo de maio já teve mais de dois milhões de acessos no YouTube. A música quer dizer isso mesmo e as demais estrofes são exatas repetições das transcritas. A melodia é um funk de batidão elétrico com uma versão da trilha sonora de “Game of Thrones”. Adoro!

Meus filhos chegaram com o vídeo em casa e já demos boas risadas ouvindo a música e assistindo ao clipe musical de produção caseira. Em pesquisa sobre o significado das palavras, o próprio autor da música afirma que não sabe o que elas significam, posto que é uma “língua estranha”.

MC Suave está fazendo um sucesso estrondoso só porque foi em uma igreja e lá ouviu o idioma dos anjos. Muito diferente do que aconteceu com o corretor de imóveis Flaviano Cardoso de Sá, que trava, há 11 anos, uma batalha contra o barulho gerado por uma igreja evangélica localizada em frente à sua casa em Franca, São Paulo. Ele afirma que desde 2005 registrou 17 boletins de ocorrência, chamou a polícia 56 vezes e moveu uma ação por causa do excesso de barulho durante os cultos, que ocorrem cinco vezes por semana no local. A igreja informou que a queixa é uma “perseguição localizada”.

O vizinho incomodado desabafou no judiciário:

“Eu só quero que acabe a perturbação sonora. Porque você está dentro da sua casa e não conseguir desfrutar de ver uma televisão ou de receber uma visita, de conversar ou atender um telefone, trabalhar, ou seja lá o que for. É doido demais.”

Depois de investigação do Ministério Público, de autuação da prefeitura, da proibição administrativa para o uso de qualquer instrumento de som, a instituição religiosa cercou sua sede com muros, colocou vidros blindados nas janelas e trocou as portas, mas não sobrou recursos para o ar condicionado, de forma que os fiéis ficaram dentro do templo no maior sufoco, mas não desistiram de cantar louvores. Com isso aprendemos que nem todos são iguais: uns fazem música, outros cantam e outros fogem dela

*Renata Abalem é advogada, Diretora Jurídica do IDC - Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte e Fundadora da ABRASAÚDE – Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde. Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira Seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.