Era uma tarde comum de março em Goiânia, ou seja, quente. Sol das 15 horas e um ar condicionado barulhento fazia força para se manter frio. Igualzinho a como eu ficaria sete minutos depois.  
 
Estava ainda com a ficha da paciente na mão, e ela sentada à mesa de reabilitação em minha frente. 
 
Quando li a profissão, já achei interessante: psicanalista, com 70 e poucos anos. "Anos-luz à minha frente", pensei. 
 
Mantive a neutralidade e, ainda olhando para a ficha, perguntei:
– Dona fulana, a senhora veio encaminhada por sicrano, e consta aqui na sua avaliação neuropsicológica um declínio cognitivo. A senhora tem se notado diferente? Como a senhora está? 
 
Ela, como uma boa psicanalista, respondeu com uma pergunta: 
 
– Você se masturba? 
 
Levantei os olhos da ficha sem levantar a cabeça. Se usasse óculos, eles estariam embaçados. Fiquei como meu ar condicionado, quente e fazendo força para esfriar. 
 
Que raio de pergunta era aquela? Tomei coragem e fitei a paciente. Olhei bem no fundo dos olhos dela. Silêncio. Estou certa de que ela ouvia meu coração, até o ar condicionado emudeceu. 
 
Pensei:
"Que declínio cognitivo o quê, isso é demência fronto temporal, só pode! Pré-frontal já bastante comprometido, cadê o controle inibitório dessa mulher? Sicrano já foi melhor em avaliar". Foram frações de segundos que duraram uma vida. 
 
Ela ri, ufa! Era uma pegadinha do malandro. Já esperava por ele saindo de trás da minha cortina. Eu rio também. Um riso singelo. 
 
– Sabe o que é, doutora? – Ousadia dela me chamar de doutora – É que a senhora (ousadia dupla) me perguntou como estou, se notei algo de diferente em mim. E eu acho que, para responder a essa pergunta, preciso saber se a senhora se conhece. Para a senhora me entender, gostaria de saber se a senhora se entende. E não estou querendo que responda à minha pergunta a interpretando como uma masturbação sexual apenas (esse apenas me causa frisson até hoje). Estou falando de conhecimento de vida. Quero saber se a senhora se toca, se sente, se percebe, se gosta, se curte. Se se diverte, se permite amar e ser amada, se mexe seus cabelos, se faz maquiagem demorada e detalhada, se lê livros de arte, se pinta, se borda, se se olha no espelho do shopping e gosta do que vê, se ouve música alta ou bem baixinha com prazer, se contempla a natureza, se gosta de ouvir os pássaros, se dança, se viaja, se se presenteia, se tem tempo para si, se tem tempo e vontade de se conhecer. É que, falando a verdade para a senhora, eu sempre fui assim, sempre me "masturbei", sempre soube o que queria e o que não queria! O que gostava e o que não gostava e de 5 anos pra cá fui mudando... E agora não estou muito certa do que quero, do que gosto e do que sinto. Parece que preciso que o outro me aponte uma direção. Que o outro decida por mim, e isso é o que mais me angustia. Não cuidar mais de mim. Por isso te pergunto: a senhora se entende? A senhora se masturba? Isso no sentido que lhe explanei. 

Minha resposta:
– Dona fulana, pode me chamar de você. E quanto à sua pergunta, estou trabalhando nisso! Não é fácil (putz, como não é), mas estou no caminho. Vamos organizar sua reabilitação e tentar juntas retomar essa falta que a "masturbação da vida" está te fazendo. 
 
– Ótimo, muito obrigada. Obrigada pela sinceridade. Precisava falar sobre isso com VOCÊ. Sinto falta de mim, e gostaria de conhecer quem pretende me ajudar a me achar.
 
A essa altura do campeonato, o ar condicionado estava estável e sem ruído, a sala e a conversa esfriaram. Meu coração, não. Coração que ama o que faz, que ama aprender, que ama um desafio, que ama a honestidade do olho no olho. 
 
Psicanalistas não passam desapercebidos. Psicanalistas de 70, então, nem se fale. 

E lá fomos nós duas estabelecer as metas da reabilitação dela com todo cuidado merecido. Já sobre as minhas metas, se até os 50 eu fizer um terço do que ela faz, estarei feliz. E quanto à "masturbação da vida", a pergunta agora é para vocês, Ludovicas: têm praticado? 

* Larissa Vaz é psicoterapeuta, psicodramatista, especialista em reabilitação cognitiva. E-mail: larissapsi@gmail.com e telefone (62) 3281-3061