A primeira experiência com a transição capilar da produtora de conteúdo Mariana Lopes, de 34 anos, foi forçada pela gravidez. “Não pude passar produtos químicos no cabelo durante esse período e sofri bastante. A raiz foi crescendo, o cabelo foi enrolando e os hormônios estavam à flor da pele”, conta. “No puerpério, foi mais difícil ainda. As pessoas me elogiavam, falavam o quanto o meu cabelo estava bonito, mas eu não enxergava assim..”

Na época, Mariana tinha 29 anos. Acostumada com os alisamentos desde os 15, voltou para a progressiva e continuou com o procedimento por mais dois anos. Nesse momento, recebeu um diagnóstico de depressão. No tratamento, passou por um intenso processo de avaliação interna. “Renasci com isso tudo e algo dentro de mim falava que era hora de resgatar minhas origens, e isso incluía o cabelo natural”, revela.

O cabelo foi crescendo até o momento em que a raiz briga com as pontas. “Fui até a cabeleireira, mas não estava disposta a fazer o big chop”. A profissional, no entanto, a convenceu. “Esse foi um dia realmente libertador. Naquele momento, deixei anos de química e cabelo velho para trás, um cabelo que não me pertencia”, lembra. Passada a euforia, Mariana entrou no carro e encarou sua nova imagem no retrovisor. “Eu pensava ‘meu Deus, o que eu fiz?’. Foi um misto de libertação com estranheza, e de início me senti feia”, revela.

O julgamento alheio, vindo de olhares e comentários, passou a acompanhar a nova fase de Mariana. “Ficou bem curtinho mesmo, um corte joãozinho. Como eu estava vindo de um processo depressivo, as pessoas achavam ‘essa aí está bem louca’”, brinca. Apesar do susto inicial, Mariana acredita que a decisão do corte foi fundamental. “A cada cacho que crescia, a cada hidratação, eu criava mais força. O processo de transição me fez renascer e me reinventar por intermédio do corte”. Agora livre do secador, ela entende que o mito do cabelo cacheado ser mais difícil de cuidar não se aplica. “São cuidados e necessidades diferentes. Me livrei também do padrão imposto de que o cabelo liso é que é bonito. Hoje, meus cachos são o meu xodó”, garante.

A cabeleireira que convenceu Mariana a realizar o corte e enfrentar a transição do zero foi Karla Queiroz, especializada em cabelos cacheados. “Sei que foi difícil para ela encarar esse processo, mas era importante. Quando as mulheres me procuram para iniciar esse processo de autoconhecimento que é a transição capilar, o meu papel é o de ensinar”, explica. Antes de tudo, a profissional aposta nas conversas e nos diálogos. “O primeiro passo é a pessoa criar consciência do que ela realmente quer. Entender que é um processo longo e difícil, e para alguns, doloroso.”

A principal motivação de quem procura Karla para tirar dúvidas e iniciar a transição é o autoconhecimento. “Uma pequena porcentagem é de pessoas que não podem mais passar por procedimentos químicos, como no caso da gravidez ou tratamentos médicos. Para essas, é tudo muito mais doloroso”, diz. “O processo é muito difícil, que vai exigir paciência e determinação. A gente se sente feia, vai se incomodar com as duas texturas diferentes”, frisa. Depois de compreender os motivos que levaram cada uma a tomar a decisão, é hora de explicar sobre os procedimentos técnicos. “Ensinar sobre esse cabelo que está por vir, que ela não conhece ainda. Muita gente não quer cortar o cabelo curto e eu respeito isso. Nesse caso, ensino a finalizar para ganho de movimento.”

Um dos grandes desafios enfrentados pelos profissionais é com o amplo acesso à informação por meio da internet. “Tem muita gente dando dicas e ensinando, mas tem muita coisa errada. O profissional leva outro olhar e cuidado”, explica.