Nada menos do que cerca de três horas gastas após cada lavagem que a maquiadora Jéssica Oliveira, de 28 anos, enfrentava no processo de secar e alisar os cabelos. Nessa conta, pode colocar as incontáveis horas nos salões em procedimentos com produtos químicos desde a adolescência. É uma fase que agora faz parte do seu passado, mas que exigiu muita certeza, apoio e firmeza na transição de assumir os cabelos naturais.

Na primeira tentativa, Jéssica acabou não levando adiante. “Comecei o processo e fiquei durante seis meses, mas acabei abandonando porque eu sentia muita vergonha. A diferença dele úmido para seco, quando incha, me incomodava muito. Acabei desistindo”, relembra. A maquiadora compreendeu que ainda não estava preparada para realizar a mudança.

Entre as reflexões feitas até a tomada da decisão final, Jéssica enfrentou alguns conflitos internos. “Eu e meu esposo começamos a discussão sobre ter filhos. Me pesava muito o fato de que os meus filhos, com mãe e pai negros, teriam cabelos cacheados e que eu gostaria que eles aceitassem os cabelos que têm. Mas como incentivar e pregar isso quando eu mesma não me aceitava?”, explica. “Foi um conflito interno muito grande.”

As experiências da sua infância, inclusive, foram determinantes para que começasse a alisar os cabelos. “A família do meu pai é toda branca, com cabelo liso e olhos claros; a da minha mãe, toda negra com cabelo cacheado e crespo. Eu ouvia comentários preconceituosos por parte de alguns familiares e tinha muita dificuldade em aceitar. Eu olhava no espelho e não queria ver o que eles diziam, ali, dentro de casa”, conta. Mesmo depois de adulta, após tratar do assunto na terapia, com amigos e com acesso à informação e discussões acerca das práticas racistas, Jéssica ainda tinha dificuldades de abandonar os procedimentos de alisamento. “Por mais que você tome conhecimento de tudo o que envolve o processo, o cabelo está totalmente ligado à autoestima e existe essa dificuldade de libertação”, diz.

Para grande parcela das mulheres, suas características físicas dificilmente foram e são identificadas nos ambientes e redes sociais e na mídia como parte de algum padrão de beleza. No artigo Mulher, Cabelo e Mídia, a pesquisadora e professora da Faculdade Casper Líbero Bianca Santana analisa o cabelo como elemento central na vida das mulheres, como forma de expressão de características pessoais e sociais. “Sociais porque, ao ser exibido publicamente, influencia nas percepções e relações sociais de quem o exibe”, escreve. A partir daí, o cabelo é reconhecido por estar subordinado (ou não) a determinados padrões, influenciando também as preferências individuais.

Outros exemplos

No final de 2017, Jéssica e o marido foram morar em outro Estado e as experiências desse período também foram determinantes na decisão de realizar a transição capilar. Lá, fez amigos que a incentivaram a assumir a aparência natural dos seus cabelos. “Me encorajou muito ver exemplos de pessoas com perfil mais despojado em relação à aparência. Eu me cobrava muito. Aos poucos, comecei a entender que o cabelo natural poderia, inclusive, realçar os traços do meu rosto”, explica. O apoio dos amigos somado ao desejo que já possuía de se libertar dos alisamentos levaram Jéssica a iniciar o processo de transição no início de 2018.

Nos primeiros meses, realizou pesquisas pela internet para encontrar dicas e soluções para o período que estava por vir. “Eu estava passando por dificuldades financeiras na época, não pude procurar um profissional. Eu optei por permanecer usando o secador e a chapinha enquanto a raiz crescia, não consegui abandonar de primeira”, lembra. Em julho do ano passado, retornou para Goiânia já com grande parte do cabelo natural presente. “Já estava com três palmos de cabelo cacheado e um palmo de cabelo liso. Tornou-se insuportável para mim o processo de secar daquele jeito”, conta ela, que procurou um profissional para realizar o corte e entender soluções para realizar as finalizações do cabelo, agora totalmente cacheado, em casa.

O momento de assumir os cabelos naturais finalmente chegou, mas não deixou de ser um desafio. “A gente chega na fase do ‘ufa, me livrei da química!’, mas entra em outro processo tão doloroso quanto, que é o de conseguir se arrumar e se sentir bonita. Foram sete meses para eu conseguir fazer as pazes com ele”, revela.

Hoje, mais de dois anos após enfrentar as próprias inseguranças e iniciar o processo de transição capilar, Jéssica consegue se enxergar livre. “É uma sensação de libertação. Não só pelo cabelo em si, mas também pelos traumas e lembranças tristes que carregamos”, diz. “Valeu muito a pena, estou liberta e meus filhos não vão precisar passar por tudo que passei. Vão poder fazer o que eles quiserem. Mesmo se optarem por alisar, que seja com acesso à informação.”

Respaldando a teórica norte-americana Rosie Weitz, a autora Bianca Santana escreve em seu artigo que, “com a consciência dos padrões a que estão subordinadas, independentemente de concordarem com as expectativas relacionadas ao cabelo, as mulheres costumam criar estratégias para lidar com tais expectativas e obter poder”. Durante muitos anos, a estratégia de Jéssica e de tantas outras mulheres foi alisar os fios; atualmente, é reconhecer e assumi-los naturais.