Em abril do ano passado, a estudante de relações internacionais Lara Coelho, de 24 anos, cortou os cabelos na altura dos ombros, bem mais curtos do que costumava usar há um tempo. “Eu sabia que, com o cabelo curto, eu não voltaria atrás. A transição é uma montanha-russa de sentimentos; ao mesmo tempo que você quer muito o seu cabelo natural, vêm também as dúvidas e a tendência é alisar de novo”, explica.

Durante o crescimento da raiz natural, Lara passou a não se importar tanto com a diferença de texturas. “Eu saía com ele assim mesmo, meio cacheado, meio liso”, conta. À medida que o cabelo ia crescendo, ela precisou entender quais eram as necessidades dos fios a cada momento. “Em cada fase, tive uma finalização diferente. As diferentes texturas realmente incomodam; então, fazia tranças e depois soltava, pesquisava produtos. Finalização é um exercício de paciência”, ensina.

Em meio às muitas pesquisas que precisou fazer para entender as características do seu cabelo, Lara iniciou um cronograma capilar, respeitando as etapas de hidratação, nutrição e reconstrução. “Comecei a ver que ele estava respondendo positivamente. Com o cronograma, eu estava dando o que o cabelo precisava. Isso me incentivou a pesquisar mais, procurar hidratações mais orgânicas e naturais”, conta. “O cacho tem memória, tende a voltar ao que era. Fui percebendo o que funcionava melhor para ele e cortando aos pouquinhos, para tirar as pontas alisadas.”

Desde que iniciou o processo de transição, Lara vem registrando as fases do seu cabelo em uma espécie de diário fotográfico. “Dá para ir acompanhando a evolução de cada fase. isso é muito incentivador”, explica. Entre as maiores dificuldades do processo, esteve a de entender qual a curvatura do seu cacho. “Tive de pesquisar as categorias para entender se era o tipo 3A, 3B ou 3C. Depois de entender, tive de achar os produtos certos, que funcionam melhor para mim”, conta. “O que me ajudou muito nisso foi seguir blogueiras e pessoas que tinham o cabelo parecido com o meu para pegar dicas.”

Entender o próprio cabelo e as reais necessidades dele tornam-se um processo de autoconhecimento. “No meio do processo, fui cortar o cabelo em um salão pela segunda vez. A cabeleireira deu vários dicas, tanto de técnicas, quanto de empoderamento. Me explicou que o cabelo cacheado pode ser de vários jeitos, não de um só”, relembra. “A partir daí, comecei a querer ousar mais, usar mais curto, cortei uma franja. Foi muito importante para mim.”

Mesmo agora, com o cabelo sem química, Lara frisa que ainda está em transição. “Isso é importante de se entender durante o processo: o cabelo não é do jeito que ele está. O cacho do início da transição não é o mesmo do final”, diz. “Quando vejo fotos de dezembro para cá, vejo o quanto o cacho já mudou. Percebo que ele recuperou mais memória do formato original.”

Os alisamentos começaram desde muito nova, mas a vontade de se reconhecer foi fundamental para a decisão de abandonar os procedimentos para trás. “Eu sempre mudei muito de estilo de roupas, sempre gostei de inovar e chegou um momento em que eu não me via mais com aquele cabelo liso. Essa curiosidade, de lembrar quem eu era me motivou. Ao olhar fotos antigas, não me reconheço mais”, conta.