Ao desembarcar em Grasse, cidade na França conhecida como a capital mundial do perfume, Arthur de Kersauson e Clément Beauvais acompanharam por dois anos e por 14 países François Demachy, famoso perfumista exclusivo Dior. Em 70 minutos de duração, o público pode conferir os bastidores da produção dos perfumes da marca no documentário Nose - O Trabalho Mais Secreto do Mundo, com direção assinada por Kersauson e Beauvais, que pode ser assistido no Now, Google Play e Apple TV.

O filme pretende explorar e explicar sobre o ofício do perfumista, considerado “o nariz” da Maison Dior, os segredos da alta perfumaria e o complexo processo que se inicia com o respeito ao tempo da colheita de cada uma das flores e matérias-primas: em 1º de setembro, colhe-se o jasmim; no dia 2 de maio, a rosa e, em fevereiro, a tangerina. A jornada sensorial e educativa do filme traz à tona a relação entre moda e perfumaria e a equivalência dos perfumes de luxo à alta costura. Dentro da marca Dior, existem as fragrâncias mais populares e as encontradas exclusivamente nas lojas e não nas perfumarias.

E se o assunto são os perfumes populares, o J’Adore é um bom exemplo da força que as fragrâncias têm no imaginário social. Se você nunca experimentou, provavelmente conhece alguém que já tenha usado dos anos 1990 para cá ou se lembra dos comerciais dominados pelo dourado, que remete a sua embalagem. Perfumes, assim como as roupas, marcam épocas, refletem comportamentos e acompanham mudanças da sociedade. “Um Chanel N° 5, por exemplo, é um perfume revolucionário e simbólico. Existe todo um contexto histórico que envolve a sua importância”, comenta a editora de perfumes goiana Leonora Rocha Lima Nogueira.

À frente da marca Eaux Parfums, Leonora acredita que esses perfumes que são considerados clássicos e verdadeiros ícones tiveram o poder de, inclusive, mudar o comportamento das pessoas à época de seus lançamentos. “O Opium, da Yves Saint Laurent, por exemplo, em que a propaganda te convidava à libertinagem, ao irreverente. O Angel, quando foi lançado, causou estranhamento e não fez muito sucesso. Anos depois, foi um estouro, porque a propaganda dele estava ligada a uma mulher que queria se exibir. Quando eu morava em Paris, só sentia Angel nos metrôs”, relembra.

A sua relação com os perfumes começou na infância, com a colônia de lavanda que sua mãe produzia. “Era o perfume da família. Colocava em uma garrafa pet e guardava dentro do armário por dias. Era uma fragrância unissex, até meu pai usava”, conta. Esse perfume feito pela sua mãe é o perfume de sua vida. A partir dele, surgiu o Eau de Leonora, sua primeira criação como editora de perfumes e sua marca registrada. “É o meu cheiro de infância, o cheiro da minha vida, que aprimorei e melhorei a qualidade dos ingredientes”, diz.

Questionada se acredita que cada um precise encontrar uma fragrância única, que seja a “sua” e acompanhe para o resto da vida, ela diz que não. “Pelo contrário, acho uma monotonia. Mesmo que eu tenha o perfume de lavanda que me acompanha, eu gosto de me divertir com os cheiros. Cada dia uso um diferente, ou a cada semana, cada mês. Depende da época”, diz. Valorizar a memória olfativa torna a experiência com as fragrâncias mais especial, segundo ela. “O bacana é isso: cada cheiro é uma emoção diferente”, comenta.

Despertar o olfato é despertar experiências e memórias. “Minha relação com os cheiros começou bem cedo, sempre fui super curiosa. Era aquela menina que cheirava tudo: o chocolate antes de comer, os livros, um sapato. Minha mãe sempre me perguntava ‘menina, pra que isso?’”, brinca. Quando ainda tinha uma loja de acessórios, Leonora produzia a colônia de lavanda para as clientes usarem no corpo e nos ambientes. “Quando encerrei em 2009, as clientes sempre comentavam, pediam para eu fazer. Mas comecei a considerar fazer comente em 2013”, conta.

Ela mesma manipulou e criou uma nova versão da fragrância, agora aprimorada e com o nome Eau de Leonora. “Vendi esses perfumes rapidamente, isso por volta de 2013, 2014. Foi quando comecei a estudar perfumaria de fato, em uma escola de São Paulo e não parei mais”, conta. Os cursos de perfumaria ainda são raros, com a essência do ofício em Paris, onde ela também desembarcou.

De volta a Goiânia, criou outros perfumes para a sua coleção que tivessem a sua cara. “Entendi o que é uma perfumaria de nicho e é isso que eu buscava. Não queria copiar perfumes que já existiam, algo que era muito comum”, explica. “Era um desafio fazer as pessoas acreditarem naquele cheiro. Ficavam com um pé atrás por não ser algo famoso, com aquele respaldo comercial com uma modelo ou atriz para dar credibilidade”, diz.

Felizmente, ela observa que o cenário da perfumaria nacional vem mudando. “Marcas de nicho brasileiras novas muito interessantes vêm ganhando cada vez mais espaço. O bacana é saber usar a história daquele cheiro, dos ingredientes e mostrar para o público o que tem a ver com ele. Mostrar que nesse perfume tem sândalo, narciso, manjericão e o cliente vê com o que ele se identifica mais”, comenta. “Não é porque a atriz tal está usando um perfume que ele tem a ver com você. Pode não ter personalidade nenhuma”, finaliza.

Perfume e colônia: qual a diferença?

Na hora de comprar o frasco com sua fragrância favorita, as classificações utilizadas pela perfumaria podem confundir. Colônia, perfume, eau de toilette, eau de parfum... A diferença está na concentração de essência utilizado na composição de cada um. Para ajudar na decisão, é preciso entender o poder de fixação e o nível de intensidade do aroma que se procura.

Perfume

O parfum, termo original em francês, é o famoso perfume. É a opção com maior concentração de fragrância, geralmente acima de 20% do volume total. A fixação na pele é grande, ultrapassando a 10 horas. É aquela opção em que uma borrifada é o suficiente.

 

Eau de parfum

Entre as opções de fragrâncias que não chegam à porcentagem do perfume, a eau de parfum é a mais concentrada, ficando em torno de 15 e 20% de essência em sua fórmula. A fixação também é prolongada, de aproximadamente 10 horas. Também são encontradas no mercado com o nome de deo parfum.

 

Eau de toilette

Tem característica de possuir fragrância mais discreta - nem tão forte, nem tão fraca. A concentração é de, em média, 10 a 12%. É a opção mais comum no mercado e indicada para o uso no dia a dia, com fixação de seis horas em média. Na hora de usar, use a regrinha de borrifar em pontos estratégicos – como pulso, atrás da orelha e pescoço, áreas de grande circulação sanguínea.

 

Eau de Cologne

A água de colônia possui baixa concentração de essências, em torno de 5% e, por isso, seu poder de fixação também é menor, de aproximadamente duas a cinco horas. É uma das opções preferidas das brasileiras, pela sensação de refrescância que o produto traz.