Não há dúvidas de que o Botox (na verdade, um nome comercial da toxina botulínica tipo A) é o queridinho daqueles que buscam manter a aparência jovem. No entanto, seu primeiro uso na medicina foi bem diferente disso. A neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum começou a ser estudada ainda em 1810 como opção terapêutica para tratar espasmos musculares.

Mas foi apenas no final dos anos 1980 que a toxina começou a ser empregada para fins estéticos, caindo no gosto de pessoas que desejam retardar o envelhecimento da pele. Segundo uma pesquisa realizada neste ano pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a técnica é um dos tratamentos mais procurados pelas brasileiras: seu uso cresceu 390% em apenas dois anos. Além do Botox, outras marcas comerciais disputam o mercado, como Dysport, Botulift, Botulin, Xeomin, entre outras.

Como funciona

Ao ser injetada no músculo, a toxina botulínica bloqueia os terminais nervosos e impede a liberação de uma substância chamada acetilcolina, que é responsável por transmitir as mensagens elétricas do cérebro até o músculo, causando a paralisação da atividade muscular. Em decorrência disso, acontece a suavização das rugas e linhas de expressão, resultado que tornou o procedimento tão famoso. Para a dermatologista Lúcia Miranda, a popularidade se deve ao desejo de correr contra o tempo. “Quase todas as mulheres e homens querem mais beleza e rejuvenescimento. A ideia é parar o tempo, e a ciência proporciona isso.”

Mesmo assim, apesar do sucesso, muita gente resiste ao procedimento por acreditar que a toxina botulínica pode deixar o rosto da pessoa sem expressão. “A questão é controversa. Os protocolos atuais preconizam a aplicação diretamente no músculo responsável pela formação da ruga e atua relaxando a musculatura. Esse relaxamento pode ser mais ou menos intenso, dependendo da dosagem e da técnica de aplicação. Atualmente, o tratamento é individualizado e considera as características e expectativas de cada caso”, explica Lúcia.

Os primeiros efeitos da técnica poderão ser observados imediatamente após a aplicação, a depender da toxina e de sua concentração. Porém, em alguns casos, somente entre 48 a 72 horas após o procedimento os resultados são visíveis e, de forma mais completa, em aproximadamente duas semanas. “Já a duração total do efeito é de quatro a seis meses, dependendo da resposta individual do paciente, seu metabolismo e da técnica de aplicação e dosagem aplicada.”

Contraindicações

Segundo a dermatologista, é necessário que a saúde esteja em dia para que sejam alcançados os melhores resultados. A aplicação da toxina botulínica não é recomendada para gestantes, mulheres que estejam amamentando, portadores de doenças neuromusculares, pessoas que façam o uso de anticoagulantes ou que apresentem algum tipo de infecção no local onde será aplicada a substância.

“Para aqueles que estão aptos, mas estão em dúvida, é importante esclarecer que a toxina botulínica não vicia. Não há qualquer evidência científica de que essa aplicação cause dependência ou vício. O que pode ocorrer é uma dependência psicológica. Daí a importância do dermatologista adequar a dose e o tempo certo de reaplicação. Não é bom ter intervalos menores que quatro meses entre uma aplicação e outra.”

Saiba mais

A dermatologista Lúcia Miranda esclarece outras dúvidas sobre a aplicação de toxina botulínica

A toxina botulínica aumenta o volume dos lábios?

Segundo as indicações específicas, não, porque ela não tem a capacidade de aumentar o volume dos lábios. Ela serve para relaxar a musculatura onde é injetada, tratando as rugas de expressão, como as que se formam ao redor da boca, o famoso código de barras. O tratamento indicado para aumentar o volume dos lábios é o preenchimento labial que, além do volume, também pode ser utilizado para a redefinição de contorno. Nessa região, a aplicação deve ser muito cautelosa e em pouca quantidade, para evitar efeitos colaterais desagradáveis, como a dificuldade em sugar um alimento líquido.

Os cremes antirrugas oferecem resultados similares ao tratamento com a toxina botulínica?

Apesar de muitos cremes prometerem resultados iguais aos obtidos com a aplicação de toxina botulínica, esse é mais um mito. Primeiro, é importante reforçar que não existe creme com toxina botulínica tipo A em sua formulação. Além disso, os cremes agem superficialmente na pele, melhorando a hidratação e atenuando as rugas mais finas. Já a toxina atua diretamente no músculo responsável pela formação das rugas de expressão. Portanto, os cremes atuam de forma diferente e não são capazes de reproduzir resultados comparáveis à toxina.

A toxina botulínica pode substituir uma cirurgia plástica?

Não, são procedimentos diferentes. Em casos de pacientes que realizaram cirurgia plástica, a toxina pode complementar a cirurgia, tornando-a menos invasiva. Hoje, temos evidências de que as aplicações de toxina botulínica podem postergar a necessidade de uma intervenção cirúrgica, pois, além de atenuar as rugas de expressão, podem prevenir o surgimento de novas rugas pela reeducação da mímica facial.

A aplicação é dolorida?

É praticamente indolor e normalmente feita com agulhas bem finas. Para pacientes mais sensíveis, pode ser utilizado um anestésico tópico local com auxílio de gelo. Em algumas clínicas, há um aparelho que refresca a pele, proporcionando o efeito anestésico.

A toxina botulínica também pode ser indicada em prol da saúde?

A toxina botulínica pode ser eficaz para o tratamento do bruxismo, sorriso gengival, assimetrias por contraturas musculares e paralisia facial, hiperidrose (suor excessivo) e enxaqueca crônica. Além disso, estudos médicos mais recentes apontam que a toxina botulínica também pode ser aplicada em tratamentos para dores neuropáticas, como a neuralgia pós-herpética, melhorando a qualidade de vida dos seus portadores.

Botox e atividade física

Há estudos que relacionam a durabilidade da toxina botulínica com a prática de atividade física intensa. Tanto a hipertrofia e a contração muscular dos músculos da face como os processos inflamatórios existentes nessas atividades podem diminuir o efeito da substância, já que essas inflamações aumentam a produção de radicais livres, um dos responsáveis pelo envelhecimento celular.

A recomendação é evitar a prática de exercícios nas 24 horas subsequentes à aplicação, especialmente ao ar livre, quando a pele, devido ao procedimento, pode ficar com a coloração arroxeada e, com a exposição ao sol, existe o risco de manchas.