O Brasil precisa comemorar as pequenas vitorias na luta contra o racismo no Brasil. Mas, como mulher branca, eu sei muito bem meu lugar de fala e eu estou aqui não para falar de racismo, mas de privilégio branco. Sou mulher branca, em uma família multirracial com brancos e pretos, e ainda, herança europeia e indígena.

Mas, como disse, vim aqui para falar de privilégio branco, e esse tem tudo a ver comigo. Para começo de conversa, a minha pele branca e meu cabelo loiro nunca foram problemas para mim. Sempre sou muito bem recebida em qualquer lugar que entro, com sorriso e um gentil ‘em que posso ajudá-la?’.

Nunca fui seguida dentro do supermercado, ninguém nunca segura a bolsa mais forte ou fecha a janela do carro quando me aproximo. Nunca vi ninguém mudando de calçada por minha causa, nem apressando o passo com medo de mim.

Ninguém nunca me olhou torto ou duvidou da minha capacidade financeira de pagar uma conta em um bar ou loja requintada. Nunca me pediram para usar o elevador de serviços nem a porta dos fundos. Nunca.

Dificilmente me param em blitz e nunca sofri uma abordagem policial ou um ‘baculejo’. Nunca me preocupei com a roupa que vou ao mercado. Vou de short e chinela e continuo sendo muito bem tratada. Quando passo meu cartão de crédito, ninguém pede minha identidade.

Onde eu quero chegar? No privilégio branco. Eu não preciso alisar o meu cabelo para a entrevista de emprego para me ‘encaixar no perfil’. Eu não vou ganhar a metade do salário da minha colega branca, ninguém vai achar que só me formei na universidade por causa das cotas – e isso não é demérito nenhum.

Não preciso me preocupar com meus filhos brancos brincando na rua, em um país onde morrem cerca 23 jovens negros por dia. E bem não faço parte de várias outras estatísticas horríveis ligadas à cor da pele. Enfim, acho que deu para entender o que é ter privilégio branco. Mas a grande questão é: como uso o meu privilégio branco para ajudar a combater o racismo e discriminação?

É preciso que as pessoas reconheçam esse privilégio branco e entendam que construímos um lugar perigoso para pessoas pretas no Brasil. E, agora precisamos usar esse mesmo privilégio branco para combater tudo isso que está impregnado em nossa sociedade.

Esse é o momento de nos colocar na defesa das pessoas, de falar, de não aceitar. E quando você presenciar uma discriminação, use seu privilégio para ser antirracista, para combater qualquer conduta discriminatória. Não se cale.

Nos livros escolares, a imagem do homem bom é de um homem branco, europeu e cristão, e aquele homem é o exemplo de um ser perfeito, superior, bondoso e símbolo de beleza. É preciso desconstruir tudo isso, pois essa simbologia de que o branco é superior a pretos, vermelhos e amarelos, acaba por justificar sua dominação, exploração e morte, já que sua cor os torna menos perfeitos e menos humanos.

Ao invés de retratar a história e luta do povo preto, a sua força, sua importância na formação do Brasil, seus heróis e suas conquistas, esses livros trazem a imagem do preto como um ser humilhado, incapaz, sem beleza, rude e agressivo. Como uma criança preta se sente ao ver esses livros? E representatividade, cadê?

É papel da família, do poder público e de instituições de ensino entender como essas ‘histórias mal e mau contadas’ aumentam e encorajam a desigualdade no Brasil. Por meio da educação pode-se esclarecer aos alunos o que é o privilégio branco, e como ele se desenrolou aqui, compreendendo o quanto isso aumenta a desigualdade social e quanta dor o silêncio dos privilegiados pode causar.

Ivna Olímpio Lauria é advogada, mestre em Desenvolvimento e Planejamento Territorial, coordenadora adjunta dos cursos de graduação de Direito e de Gestão Pública e da pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas e Direito Aplicado às Indenizações da UniAraguaia