Não é incomum, nos últimos tempos, ouvir que uma criança é hiperativa, desatenta, tem dificuldade para aprender, enfim, tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou tem transtorno de aprendizagem. Com isso, tem-se também um número cada vez maior de crianças que fazem uso de algum medicamento para questões relacionadas a comportamento e aprendizagem. Mas o que estamos considerando transtorno? O que é um comportamento adequado? Para quem? E as condições da escolarização, quais são?

É neste processo que temos presenciado, cada vez mais, o aumento da medicalização da vida de crianças e adolescentes. Mas o que vem a ser medicalização? De acordo com Maria Aparecida Moysés e Cecília Azevedo Collares, importantes estudiosas da temática no Brasil, medicalização refere-se à transformação de questões sociais, políticas, históricas, coletivas, em questões individuais, mais especificamente biológicas, entendidas em termos médicos e para as quais busca-se tratamento médico, tendo como foco das explicações e do tratamento, o sujeito e seu corpo.

Assim, em muitos casos, por se constituir de modo distinto daquilo que se espera, uma criança pode ser diagnosticada com um transtorno de comportamento e/ou aprendizagem e, ainda, passar a fazer uso de medicamentos, que apresentam uma série de efeitos adversos e implicações consideráveis no desenvolvimento deste ser. Um exemplo é o Cloridrato de Metilfenidato, mais conhecido pelos nomes comerciais Ritalina e Concerta, do qual o Brasil é o segundo maior consumidor mundial.

Mas, teriam estas crianças diagnosticadas de fato um transtorno ou estamos transformando situações da vida social em problemas de indivíduos? Se pensarmos o controle voluntário do comportamento e da atenção, de acordo com Vigotski, um dos autores da Psicologia Histórico-Cultural, estes não são processos que estão prontos na criança pequena ou que dependam somente dela, são funções psicológicas superiores, que não estão dadas no nascimento e que irão se constituir na interação com outros seres humanos, com os quais a criança aprende e se desenvolve.

Assim, na sociedade atual, precisamos tomar cuidado para não culpabilizarmos as crianças por não ficarem quietas, se a todo instante solicitamos que as mesmas realizem múltiplas atividades; exigirmos que fiquem sentadas por longos períodos e focadas se há uma série de outros estímulos que atraem sua atenção.

É necessário muito cuidado antes de apontarmos que determinadas crianças são hiperativas, esquecendo-nos das especificidades da infância e da multiplicidade de formas de existir. Devemos ter cuidado para não esperarmos aprendizados excelentes se não são oferecidas condições adequadas. Enfim, é preciso refletir sobre o que estamos oferecendo às crianças e adolescentes, especialmente no contexto da educação, e construirmos outras possibilidades.

É buscando construir tais possibilidades que o Centro Universitário Araguaia (UniAraguaia) debate com seus estudantes, especialmente do curso de Pedagogia, e a comunidade, sobre o tema, objetivando uma formação que possibilite aos futuros professores/as uma compreensão da multiplicidade de fatores envolvidos nas expressões e dificuldades das crianças na escola.

Sem negar a existência de situações que necessitem de acompanhamento de profissionais da saúde, mas entendendo que não são todas ou a maioria das situações que se enquadram neste quesito. É preciso voltar o olhar para o coletivo e para as condições materiais da vida em sociedade e, a partir disso, lutar pelos direitos das crianças e adolescentes à uma vida digna e desmedicalizada.

Geane da Silva Santos é psicóloga, mestre em Psicologia (UFG) e professora do curso de Pedagogia da UniAraguaia.