Quando falamos em educação e em representatividade feminina, é impossível não lembrar da precursora Nísia Floresta Brasileira de Augusta, pseudônimo adotado por Dionísia Gonçalves Pinto, defensora de ideais feministas em uma época em que ainda não havia tal termo e os direitos das mulheres eram duramente combatidos por uma sociedade essencialmente patriarcal. 

Nascida em 1810, em Papari, no Rio Grande do Norte, Dionísia era filha de um advogado português com uma rica herdeira da região. Aos sete anos, a pequena entrou para o convento das carmelitas, onde recebeu aulas de clássico manual e canto. Diferente das outras alunas, entretanto, ela também se sentia atraída pelos livros da biblioteca, paixão que sempre foi incentivada pelo pai liberalista.

Quando completou treze anos, a menina foi obrigada a casar-se com um rico proprietário de terras, conforme as normas sociais da época. Poucos meses depois do matrimônio, todavia, Dionísia rompeu com seu esposo e fugiu de volta para casa.

Anos mais tarde, em 1828, a jovem passou por um período triste em sua vida, repleto de luto e saudade. Por fazer parte de um levante contra a poderosa família Cavalcanti, influente na elite de Olinda, onde moravam na época, o pai de Dionísia foi assassinado.

Três anos depois, no entanto, ela finalmente descobriu aquele que parecia ser seu papel no mundo. Motivada por seu amor pela literatura, a jovem assumiu o nome Nísia e passou a escrever para o jornal O Espelho das Brasileiras, editado em Recife e um dos principais representantes da chamada Imprensa Feminina.

Segundo Antônio Carlos de Oliveira Itaquy, que escreveu um estudo sobre a autora, Nísia acabou escolhendo seu pseudônimo por diversos motivos. Floresta porque esse era o nome da fazenda onde nasceu, Brasileira pelo orgulho do país e Augusta em homenagem ao seu grande amor, o acadêmico Manuel Augusto de Faria Rocha.

Em seus textos, a escritora falava sobre as condições de vida das mulheres, além de defender a educação feminina em ambas as esferas, cívicas e moral. No total, o jornal para o qual ela escreveu teve 30 edições. Todas elas contaram com Nísia como redatora.

Dos primeiros textos no jornal, Nísia se apaixonou pela arte de escrever e, em pouco tempo, lançou sua primeira obra, publicada em 1832, o livro Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens.

Hoje, discute-se a teoria de que a obra era baseada em A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft. Existe ainda a ideia de que Nísia teria traduzido literalmente o livro La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750. Independentemente da inspiração, a obra da brasileira foi considerada um ícone da literatura da época.

Mas, Nísia se recusou a parar por aí. Assim, o foco dela passou a ser a educação de meninas, que, até então, aprendiam apenas a cuidar da casa. Em meados de 1838, o pioneirismo feminista de Nísia extrapolou as barreiras literárias e se expandiu para um contexto sociocultural.

Isso porque, naquele ano, ela fundou o Colégio Augusto, um dos primeiros do país exclusivos para meninas. Ainda que as jovens não fossem proibidas de estudar, elas costumavam receber aulas de bordado, canto e etiqueta. Nas mãos de Nísia, porém, meninas e adolescentes brasileiras passaram a estudar matemática, português e história.

Tais feitos renderam duras críticas à defensora feminista, tanto à sua vida pessoal, quanto à sua metodologia de ensino, já que defendia o direito à educação científica para meninas, fundando a base de gerações de mulheres que hoje estão em escolas e universidades aprendendo e ensinando.

Em 1853, Nísia mudou-se para a Europa, onde conviveu com o filósofo e pai do positivismo Augusto Comte. Por lá, ela publicou diversos artigos, mas também ficou sob a mira daqueles que não concordavam com seus ideais e, assim, ela caiu no esquecimento.

Foi apenas décadas mais tarde, no final do século 20, com o trabalho de mulheres como Zahidé Muzart e Constância Duarte, que a história de Nísia voltou à tona. Falecida na França aos 74 anos, a potiguar voltou a ser lembrada e passou a ocupar o lugar que merece na história da educação brasileira.

Itana Amaral é aluna do 7º período de Jornalismo da UniAraguaia, sob orientação da professora Ana Maria Morais