Texto: Lillian Bento

Com a suspensão das aulas presenciais e a necessidade do isolamento social para evitar a transmissão da COVID-19, as escolas e universidades brasileiras encontraram no ensino remoto uma solução imediata. A Educação a Distância (EaD) passou a ser a saída emergencial para a pandemia, mas após quase um ano letivo inteiro de experiência, especialistas afirmam que a metodologia vai seguir presente no cotidiano de estudantes e professores. Com o fim da necessidade do ensino remoto, quem ganha espaço é o ensino híbrido, apontado como o futuro da Educação no Brasil.

Mais que unir o ensino presencial ao online, o ensino híbrido, ou blended learning, é apontado como revolucionário por ser personalizável e promover um processo de ensino-aprendizagem que considera a história de vida e o contexto em que vive cada estudante. De acordo com dados do Censo de Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), divulgado em outubro de 2020, mesmo antes da pandemia, a EaD seguia um crescimento acelerado.

De 2009 a 2019, o número de novos alunos matriculados em cursos EaD passou de 330 mil para 1 milhão e meio de estudantes – um crescimento de 378,9%. Enquanto no ensino superior presencial o crescimento foi de apenas 17,8%.  E isso antes do isolamento social. De acordo com a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), o número de ingressantes em cursos remotos chegou a 2 milhões durante a pandemia.

“Com a pandemia, houve uma experiência, que foi forçada pela impossibilidade do ensino presencial, mas as universidades que já estavam investindo o mínimo em EaD, passaram a investir mais e aprimoraram o trabalho”, afirma o presidente da ABED, o professor emérito da USP, Frederic Litto. “O maior problema ainda é que a maioria das universidades não tinham experiência e foram tateando, mas agora os próprios estudantes já afirmaram gostar muito do método e não há por que voltar atrás. Vamos avançar ainda mais”, avalia.

Litto ressalta as vantagens econômicas tanto para as instituições, que passam a investir menos em infraestrutura física, quanto para os estudantes, que podem ter aulas sem precisar gastar com transporte. Outro ponto apontado como fundamental é que, com o ensino híbrido, é possível misturar metodologias, além de adequar o currículo de acordo com as necessidades e perfil de cada estudante. Para o professor e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Eliel Constantino, é importante destacar que o Ensino Híbrido é uma metodologia ativa que busca desenvolver a autonomia do estudante.

Eliel explica que o ensino híbrido busca a colaboração, a confiança e o protagonismo do estudante por meio de um ambiente envolvente, da valorização dos saberes prévios do estudante e da busca ativa por novos saberes que façam sentido para ele. “Se não fizer sentido para o estudante, não haverá aprendizagem e tudo isso ocorre a partir da combinação de dois modelos de ensino que estão historicamente separados: o modelo presencial e o modelo remoto, com o apoio das tecnologias digitais.”

No entanto, mesclar ensino remoto e presencial é apenas o primeiro passo da metodologia. “Cada estudante aprende em um ritmo próprio de aprendizagem e isso exige novas práticas pedagógicas e professores que possam proporcionar essa aprendizagem ativa e mobilizar esse estudante no processo de aprendizagem”, explica Eliel, que também é coordenador de projetos da Foreducation EdTech, professor do Colégio Internacional Radial, em São Paulo, professor de pós-graduação lato sensu, na modalidade EaD, da UniAraguaia e Google Educator.

O professor se torna um mentor

No ensino híbrido, o estudante se torna dono de seu próprio caminho de aprendizagem e, por isso, o papel do professor não é mais daquele que transmite o conhecimento, mas o de mediador. Alguém que deve estar preparado para atuar em todas as etapas do ensino. Não é possível, por exemplo, adotar uma metodologia da sala de aula e levá-la para o online, não vai funcionar. É preciso entender as peculiaridades dessa metodologia, em que o professor também utiliza as ferramentas digitais para expor conteúdos e tem mais tempo para se dedicar ao desenvolvimento das habilidades e competências desse aluno.

Historicamente, a figura do educador é de um profissional que vai transmitir o conhecimento, sendo o principal responsável pela aprendizagem. Porém, no ensino híbrido, essa lógica não é válida e o protagonismo, a sociabilidade e a inteligência emocional do estudante ganham destaque na interação com o conteúdo. Para o presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), Frederic Litto, as mudanças precisam começar na formação de professores. “O modelo que é seguido hoje para formação de professores é do século XIX, que considera o professor aquele que vai transmitir o conhecimento, e isso é falho, porque ele não está lá para isso. O professor é um mediador, é aquele que vai orientar para que o estudante aprenda a ler nas entrelinhas.”

Como aplicar o ensino híbrido na Educação Infantil e Ensino Básico

Cada vez mais cedo, as crianças têm acesso e domínio de tecnologias como celulares, tablets e computadores. São ferramentas que já estão inseridas no cotidiano das novas gerações e o desafio do Ensino Híbrido é aproveitar essa familiaridade para otimizar o aprendizado e extrair o melhor dos dois mundos: o mundo online e o offline.

A pedagoga Maira Tangerino, que é especialista em EAD e Tecnologias Educacionais, professora e tutora na Uniaraguaia, na Pós-Graduação em Educação Infantil, garante que é justamente na Educação Infantil o período mais adequado para iniciar o ensino híbrido. “É justamente na Educação Infantil que os professores têm uma maior sensibilidade para entender a criança como sujeito, como protagonista de sua própria trajetória escolar. Quando um professor orienta para que a criança entenda um sabor ou auxilia no processo de retirada de fralda, que é um momento importante, isso faz toda a diferença, porque é exatamente desse lugar que estamos falando. Ensino híbrido está muito além de mesclar remoto com presencial, a hibridez se dá quando a gente acolhe a subjetividade do sujeito e entende a potencialidade de aprendizado que cada um tem”, pontua. Nesse processo, o professor assume o papel de mentor e apoia o estudante na construção nesse trajeto escolar e, futuramente, profissional.

Uma das metodologias muito utilizadas na Educação Infantil e Básica é a da sala de aula invertida, que é orientar aos estudantes que estudem determinado assunto em casa para complementar em sala de aula com discussões, dinâmicas em grupo ou outras propostas. Assim, o aluno vai para a escola com um conhecimento prévio do assunto.

Como aplicar o ensino híbrido na educação infantil

Após conhecer as vantagens do Ensino Híbrido, é preciso iniciar o planejamento. Confira algumas sugestões de como você pode aplicar a metodologia em sua instituição de ensino.

1° passo: Faça o planejamento. Comece fazendo pesquisas sobre as formas de aplicação da metodologia;

2º passo: Levantamento de custos do investimento estrutural e tecnológico da escola, incluindo a formação continuada de professores;

3º passo: Escolha a forma de aplicação do ensino híbrido. Listamos aqui algumas delas:

- SALA DE AULA INVERTIDA – Consiste em estudar determinado assunto em casa, online, e complementar o conteúdo com discussões, debates, dinâmicas em grupo em sala de aula.

- ROTAÇÃO DE LABORATÓRIO – O professor divide a turma em dois grupos para estudar o mesmo assunto, em diferentes modalidades de aprendizagem. Por exemplo, um grupo usa o computador para experimentar fórmulas matemáticas, enquanto outro faz a mesma coisa usando o caderno e o livro. Depois os grupos invertem os locais e o modelo de aprendizagem. Com isso assimilam melhor o conteúdo ministrado.

- ROTAÇÃO POR ESTAÇÕES: Essa forma de aplicação pode ocorrer na sala de aula, dividindo a turma em pequenos espaços com atividades independentes, que tratem do mesmo tema e sejam complementares. Assim, o estudante deve passar por cada uma delas. Ao menos uma das estações deve envolver algum tipo de tecnologia. Mas, essa rotação também pode ocorrer no ensino remoto, com o envio de diferentes links com atividades para os estudantes – cada um representando uma estação.