A pandemia provocada pela Covid-19 descortinou uma realidade desafiadora para o ‘novo normal’ na área educacional: cerca de 6 milhões de estudantes, no Brasil, são afetados pela falta de acesso à internet e aos equipamentos necessários para seguir suas atividades escolares e acadêmicas.   

Em agosto de 2020, o estudo Acesso Domiciliar à Internet e Ensino Remoto durante a Pandemia, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada - IPEA, indica que, da pré-escola à pós-graduação, os alunos não participam das aulas remotas por falta de acesso à internet - falta uma banda larga e rede móvel disponíveis para isso.

Este estudo afirma também que, para fazer a compra de equipamentos e tecnologias 4G, seriam necessários R$ 3,9 bilhões. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou o projeto de Lei número 3.477, de 2020, aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Se a lei em questão tivesse sido sancionada, R$ 3,5 bilhões da União seriam distribuídos para Estados e Municípios justamente com esta finalidade, possibilitando, assim, maiores condições de acesso ao ensino on-line.

Investimentos em pesquisas de Inteligência Artificial podem oferecer soluções de baixo custo e expandir o acesso ao ensino remoto. A falta de políticas públicas na área da Educação, contudo, é, hoje, um obstáculo na conquista deste que é um dos direitos constitucionais fundamentais dos cidadãos brasileiros.

“Infelizmente, atravessamos um momento difícil. Trocamos de ministro como trocamos de roupa. É impossível planejar dessa forma”, avalia o professor e doutor Luciano Vieira Lima, coordenador do Laboratório de Inteligência Natural e Artificial (LINA), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). “Além disso, teríamos que ter pessoas com perfil de pesquisador e cientistas na Educação. Só o dinheiro não resolve”, acrescenta.

Tecnologias Assistivas
O Laboratório de Inteligência Natural e Artificial (LINA) da UFU vem desenvolvendo pesquisas que podem tornar a educação remota mais inclusiva e democrática. Um desses estudos é o desenvolvimento dos chamados hiperbooks, um sistema de hipermídia que pode ser usado para a escrita de livros didáticos e não didáticos.

Esses livros são integrados digitalmente a vários recursos de plataformas e-learning de forma que o aluno com deficiência ou dificuldades financeiras poderá acessar uma metodologia de ensino mais completa, com interação direta com outros estudantes, professores e com a instituição.

A pesquisa do LINA durou cinco anos e gerou como produto o hiperbook Musicografia Lima (2018), publicado pela Editora EDUFU e Scielo. A obra possibilita o ensino da notação musical e torna o aprendizado mais atrativo. Uma das vantagens é que exige de pessoas cegas ou com deficiência visual um menor esforço e menor tempo de dedicação.

“Essa pesquisa foi iniciada com um aluno de mestrado, Thales Ferreira Lima, o que nos permitiu gerar um sistema de livros que pode ser instalado em qualquer equipamento, seja smartphone, iphone, kindle, SmartTV, ou seja, diferente de algumas plataformas que exigem aparelhos mais modernos e caros”, explica o professor da UFU.

A plataforma oferece ferramentas para que professores e gestão escolar possam conduzir todo o processo de aprendizagem dos alunos, gerando relatórios baseados no que o usuário acessa. “O novo formato de e-book multimídia, controlado por hipermídia, permite avaliações, análises individuais e coletivas dos alunos e tudo pode ser feito remotamente”, frisa Luciano Lima.

Apesar de a pesquisa já estar no quinto ano, o sistema de hipermídia ainda não está disponível para venda ou para uso do poder público, por falta de investimento na democratização da Educação.

Download gratuito
O hiperbook Musicografia Lima (2018) é gratuito e pode ser baixado no site da Editora da Universidade Federal de Uberlândia (EDUFU) - link http://www.edufu.ufu.br/catalogo/ebooks-gratuitos/musicografia-lima-uma-forma-simples-de-aprender-e-ensinar-musica-para. As pesquisas contam com o programa de pós-graduação em Tecnologia, do Programa de Mestrado da Comunicação e Jornalismo.

“Avançamos muito nesse ano e meio de pandemia na questão dos estudos da tecnologia assistiva, mas foi com muita luta e esforço voluntário de pesquisadores. O brasileiro é lutador mesmo diante das instabilidades do governo”, conclui o professor doutor Luciano Lima, coordenador do Laboratório de Inteligência Natural e Artificial da UFU.

Letícia Leite e Mateus Marques são estudantes de Jornalismo da UniAraguaia sob a orientação da professora Patrícia Drummond