Na matéria publicada neste espaço na última segunda-feira (31/05) sobre Dorina Nowill, foi mostrada a importância fundamental que esta educadora e filantropa teve para a educação de cegos e pessoas de baixa visão no Brasil. O servidor público Aldenor Carneiro dos Santos, 50 anos, é a prova viva do bom resultado do trabalho iniciado por Dorina.

Graduado em Direito e pós-graduado em Direito Público, Aldenor Carneiro trabalha na Gerência de Patrimônio Imobiliário da Secretaria de Administração do Estado de Goiás. Ele nasceu com deficiência visual, foi alfabetizado em braile e teve contato com os livros em braile na primeira infância.

O servidor público destaca que toda sua trajetória de estudos e formação se deu graças ao conhecimento obtido por conta da educação em braile. Mesmo diante do grande avanço das ferramentas de tecnologias que auxiliam pessoas com deficiência visual atualmente, por meio de celulares, computadores, gravadores, é somente por meio dos livros em braile que os deficientes podem ter a noção exata de como se escreve e como é a formação das palavras.

“Deficiente visual que não lê em braile tem dificuldade em escrever as palavras, porque, exatamente, ele não vê o texto escrito. Quando a gente ouve o leitor de tela ler com a gente, a gente não tem noção como está escrita a palavra, se é com S, Ç, SS, Z. Então é preciso conhecer a escrita para que você desenvolva a possibilidade de escrever corretamente”., defende Aldenor Carneiro.

O servidor público, que teve o privilégio de conhecer Dorina Nowill pessoalmente e saber de sua história e trajetória, destaca que a educadora foi extremamente relevante para a educação em braile e que sua fundação é de fundamental importância para a disseminação do sistema braile no Brasil. Para ele, foi por meio dela que pessoas como ele têm acesso à leitura em braile atualmente.

Walisson Henrique Ferreira Alves, 20 anos, foi diagnosticado com glaucoma congênito, uma doença rara dos olhos que afeta crianças desde o nascimento até os três anos de idade, causada pelo aumento da pressão dentro do olho devido ao acúmulo de líquido.

O jovem foi alfabetizado em braile aos sete anos, hoje é atleta de futebol, acadêmico de Direito da Universidade Federal do Estado de Goiás (UFG), estagiário na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, músico e atual diretor da juventude da Associação dos Deficientes Visuais do Estado de Goiás (ADVEG).

O estudante, que foi alfabetizado em braile e usou o sistema de ensino durante sua trajetória de estudos, hoje, na faculdade, não utiliza com tanta frequência, por serem livros extensos, explica. “Atualmente eu tenho um contato mínimo com o braile, isso é ruim. Utilizo para leitura o celular, computador, essas tecnologias assertivas que estão disponíveis”, relata. Walisson também informa que ainda há bastante dificuldade em conseguir encontrar livros específicos e materiais que sejam produzidos em braile. 

Desigualdade

Atualmente pode-se destacar que o ensino educacional para pessoas cegas e com deficiência visual obteve um grande avanço, entretanto algumas dificuldades e desigualdades ainda são enfrentadas por essas pessoas.

“Sei que a sociedade ainda tem certa dificuldade em lidar com as pessoas com deficiências, não só com deficiência visual. Mas, é exatamente pelo desconhecimento, não obstante as várias formas de disseminação do conhecimento, as informações estarem mais acessíveis a todas as pessoas, nós ainda temos uma parcela grandiosa dessa sociedade que não teve contato com as pessoas com deficiência, e o desconhecido assusta todas as pessoas, então assusta também essas pessoas”, explica Aldenor Carneiro.

Apesar dessa constatação, Aldenor observa que, por meio dos grandes avanços obtidos, principalmente das tecnologias e ferramentas digitais, mesmo com a dificuldade de acesso, é mais fácil viver nessa sociedade do que há duas décadas.  

Já o estudante Walisson informa sobre como a questão da acessibilidade, que muitas vezes não é fornecida em várias áreas, e como o capacitismo nas escolas, cursos e faculdades são pouco vistos pela sociedade.

Ele considera que, na sua vida estudantil, houve melhoras quando passava de uma escola para outra com maior progresso na educação inclusiva, mas destaca que as pessoas ainda olham para o deficiente visual com um olhar de dúvida e limitações: “Será que vai dá certo, será que ele vai conseguir, será que ele dá conta?”.

Tiago Teixeira, aluno do 7º período de jornalismo, sob orientação da professora Ana Maria Morais