Ter habilidade no mercado da bola é algo tão importante quanto difícil. Saber a hora de agir, esperar ou não, a proposta a fazer, o quanto cobrar, negar e admitir. Ainda mais quando se tem algo valioso em mãos. Com Michael em alta após 2019, além de ter a chance de conseguir um bom negócio e rechear os cofres do clube, o Goiás tem feito esse exercício de experiência e paciência. O desfecho não dá para prever. Nem quando ocorrerá.

Há quase um ano, escrevi neste espaço que, ao recusar a oferta do Santos por Michael, o Goiás sugeria ter um plano para negociar o jogador. Hoje, é possível perceber que isso realmente ocorreu. O clube fez a aposta correta naquele momento e foi hábil ao estabelecer novos parâmetros durante o ano de 2019.

A aposta certa foi dar mais tempo para Michael aparecer. O jogador sofreu, nem sempre foi fácil. Chegou a ser vaiado pela própria torcida, foi alvo de críticas que o pediram no banco de reservas, passou por período de instabilidade disciplinar, recebendo muitos cartões, e seguiu firme. Chegou ao fim do ano extenuado, mas reconhecido.

O Goiás deixou seu atacante ser pressionado, algumas vezes em excesso, e acabou desfrutando de um jogador mais maduro. Se foram indevidas em alguns momentos, as vaias acabaram se transformando em urros dos torcedores nas comemorações de seus gols e dribles.

Enquanto isso, o Goiás se preparava para vender Michael. Precisou sentar com o jogador pelo menos duas vezes na temporada para discutir condições de vínculo. Não conseguiu aumentar o tempo de contrato, que é até 2021, mas aumentou a multa rescisória, valorizando seu atacante, que se sentiu recompensado.

Foi numa dessas que teria formalizado o repasse de 20% dos direitos econômicos a Michael - até 2018, segundo balanço do clube, tinha 95% e, agora, diz ter 75%. Assim, chegou ao fim do ano com uma condição favorável em relação ao seu próprio vínculo com Michael.

No momento de aparecer no mercado, o Goiás se mostra irredutível sobre ter o valor da multa pago para negociar Michael. Isso certamente tem a ver com o fato de não ter mais quase 100% dos direitos sobre o jogador. Mas o clube precisa avaliar o timing do mercado e o que pensa o jogador de 23 anos.

Como está Michael? Os interessados em ter a revelação do Brasileiro certamente já sabem o pensamento do atacante sobre uma eventual transferência. E o Goiás, sabe? É decisivo prever como o jogador estará mentalmente caso permaneça por mais tempo na Serrinha.

Se isso ocorrer, pode ser favorável esperar a próxima janela de transferências para o exterior, quando os gastos dos clubes aumentam entre uma temporada e outra e o Goiás pode obter ofertas melhores. No entanto, a concorrência de jogadores no mercado também aumenta.

O tique-taque do relógio não para. E aqui vai uma obviedade, mas que pode despertar análises: serão seis meses, ao mesmo tempo, a mais e a menos. Até lá, são seis meses a mais de bola rolando, com Michael em campo em competições menos valiosas do que disputar um Brasileirão em alta. Ninguém sabe o que pode ocorrer neste período. Ao mesmo tempo, também serão seis menos a menos de contrato, com todas as suas implicações financeiras e legais.

Se acertou no início do ano ao segurar Michael apostando em sua valorização, o Goiás conseguiu o que queria. Agora, precisa ter o timing perfeito para não colocar isso em risco e aproveitar as vantagens do que construiu.