Se não dá para cravar Argentina e Itália imediatamente como favoritas na Copa do Mundo do Catar, os títulos da Copa América e da Eurocopa dão força e recuperação aos projetos dos dois países a um ano e meio do Mundial. Da mesma forma, a derrota na decisão não coloca o Brasil como candidato ao fracasso, mas indica que há trabalho a fazer.

Vimos um passo do processo de reestruturação das campeãs, sobretudo da Itália, com mais jovens em sua equipe e um trabalho de mais tempo de Roberto Mancini, ao contrário de Scaloni, que completa um ano no comando da Argentina e venceu um torneio de mais baixo nível técnico do que o europeu.

Estar no estágio de vencer um torneio duro como a Euro três anos depois de ficar fora da Copa da Rússia dá à Itália o alento de obter frutos de um projeto mais rápido do que muitos imaginavam. Fatores como a renovação, a melhora da liga do país, intercâmbio de ideias no futebol local e o abraço aos estrangeiros naturalizados ajudam a explicar.

A Argentina ter vencido a Copa América em uma final em que não precisou que Messi jogasse em alto nível diz muito sobre como o Brasil se saiu na decisão. A equipe de Tite tem de encarar os próximos 18 meses com mais trabalho duro e muita observação.

Em 2020, tudo ficou comprometido por causa das paralisações e adaptações de calendário. Foi difícil observar e ser observado. A próxima temporada europeia, que se inicia neste semestre, será decisiva nas pretensões de atletas que querem estar no Mundial e para o projeto que Tite quer levar ao Catar.

Durante as últimas semanas, ouvimos muito sobre o abismo de nível técnico da Eurocopa em relação à Copa América. Não é só isso. O histórico e a forma como a Conmebol administrou a competição nos últimos anos tirou dela parte do brilho.

Nos últimos sete anos, foram quatro edições. Priorizar acordos comerciais e marketing deixou a competição com um valor menor diante do interesse do público. No aspecto técnico, o torneio que acaba de terminar, organizado a qualquer custo em meio à terceira onda da Covid-19 e a despeito da recomendação de especialistas, foi resgatado no encerramento por uma final que colocou em campo uma das maiores rivalidades mundiais com dois craques como oponentes. Não foi um jogo tão atraente, mas salvou a lavoura.

Até a Copa, é importante lembrar o nível de adversários que o Brasil terá pela frente. Desde que a Uefa criou a Liga das Nações, em 2018, as chances de o Brasil testar sua preparação diante de seleções europeias fortes diminuíram. Há quem comemore não existir o desgaste de enfrentar equipes de alto nível para colocar pressão sobre o trabalho. Há quem veja os maiores mais difíceis como os que realmente preparam para a missão.

Questão sanitária

A informação de que uma nova variante foi detectada no Brasil em amostras de estrangeiros na Copa América é só um exemplo dos riscos alertados por especialistas antes do início da competição e que se confirmou. É o resultado do esforço do governo federal e da CBF, auxiliados por governos de quatro sedes, entre estados e prefeituras, em ter a competição.

Para ter o torneio, essa informação e muitas outras que não tiveram transparência deveriam servir e ser condição para orientar a tomada de decisões sobre protocolos sanitários e condução da competição no País. Agora, é preciso cuidar do rastro deixado pelo torneio.