Todas as competições de futebol no Brasil estão suspensas. O último campeonato que resistia era o de Roraima, que iria concluir o 1º turno no sábado (21), com a decisão da fase. Mas, na sexta-feira (20), a CBF solicitou a paralisação da competição e não há mais bola rolando no País por causa da pandemia do novo coronavírus. Quando a crise passar, a pergunta que será feita e precisará ser respondida é: como vão ficar os Campeonatos Estaduais?

A paralisação dos Estaduais, das competições nacionais como Copa do Brasil e Brasileirão feminino, além do início de disputas do Campeonato Brasileiro, deixam o cenário do futebol incerto. Tudo isso ainda terá de ser combinado aos torneios internacionais, também suspensos, tanto de clubes como de seleções nacionais, que precisam da liberação dos jogadores para as equipes de seus países. Tudo está interligado.

Dirigentes acreditam que os torneios serão retomados ao longo do ano, mas ponderam que será preciso aguardar o controle da pandemia de coronavírus. “Não posso ficar especulando, tudo vai depender da evolução (do coronavírus no Brasil)”, disse o presidente da Federação Goiana de Futebol, André Pitta, que esteve em contato com a CBF nos últimos dias e recebeu o respaldo de que os Estaduais vão ser concluídos. O dirigente repetiu várias vezes à reportagem que não dá pra pensar em soluções sem que um quadro mais claro em relação à pandemia se apresente.

A principal dúvida das federações é quanto ao número de datas disponíveis para o retorno das competições. Em 2020, a CBF havia reservado 16 datas para os Estaduais, que tiveram 18 entre 2017 e 2019. Apesar disso, em Goiás, o campeonato acabou mantido com 18 datas e utilizaria duas reservadas às Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar para disputar as duas a mais. O Goianão, até a paralisação, teve suas dez primeiras rodadas disputadas.

Os 128 times que vão participar do Campeonato Brasileiro possuem calendário para a temporada toda e precisariam conciliar competições. “Precisamos de seis datas para concluir nossa competição. Se passar de abril e não tiver definição na saúde, aguardaremos posicionamento da CBF”, frisou o presidente da Federação Paranaense de Futebol, Hélio Cury.

O presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF-PE), Evandro Carvalho vê a continuidade do Campeonato Pernambucano como quase certa. “Se não houver crise na saúde mais aguda do que essa pela qual passamos, conseguiremos terminar o Estadual. A paralisação não se apresenta tão problemática para nós. Nosso campeonato, hoje, tem uma fórmula simples”, afirmou o presidente da FPF-PE. O Pernambucano é disputado com fase de classificação com nove rodadas e fase decisiva com quartas, semi e final.

Para Evandro Carvalho, a situação financeira não será problema no Pernambuco. O presidente da FPF-PE se dispôs a ajudar os clubes. Além disso, conta com as rendas garantidas. “Tanto os clubes da capital quanto os do interior recebem renda da TV, de seus municípios e cota da federação. Quando o campeonato voltar, nos responsabilizaremos a pagar a taxa de registro dos jogadores para que os clubes não sofram com isso”, disse.

Com calendário para Estaduais limitado até abril, o presidente da FPF-PE acredita que o tempo pode ser estendido pela CBF. Evandro Carvalho aguarda posição concreta da entidade nacional dentro de 90 dias, quando crê que a crise na saúde já tenha atingido seu pico.

Imprevisível

Para o presidente da Federação Alagoana de Futebol (FAF), Felipe Feijó, o futuro do futebol é imprevisível. “A princípio, suspendemos por 15 dias. Vamos ver como será no dia 31 de março. Não tem como prever. No fim das contas, é esperar para ver”, afirmou o dirigente.

Na visão do presidente da FAF, equipes maiores e menores serão afetadas financeiramente. A própria federação não ficará isenta dos prejuízos. A ideia de Felipe Feijó para enfrentar a dificuldade é exata. “Temos de cortar gastos. Em um momento como esse, você só tem uma certeza, a de que as receitas vão cair. Depois, tomaremos decisões conjuntas. Será preciso unir todos os setores para criar soluções”, afirmou.

A retomada do Estadual em Alagoas não é garantida por Felipe Feijó. Para o dirigente, esta não é uma preocupação no momento. “Quero pensar positivo sempre. Quero acreditar que será possível retomar o Alagoano. Mas confesso que estou pensando muito mais no País do que em futebol neste momento”, finalizou o presidente da FAF.

Na sexta-feira (20), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta disse que a curva de transmissão do novo coronavírus mostrará aumento de casos, com subida rápida, nos próximos três meses. A partir de julho, ela se estabilizaria e atingiria o chamado platô. Para ele, a queda profunda só deve ocorrer a partir de setembro.

Federações e CBF realizaram reuniões nos últimos dias. O vice-presidente da Federação Paraense de Futebol (FPF-PA), Maurício Bororó, crê na boa vontade da entidade nacional para dar suporte às competições locais. “A CBF vai prestigiar os Estaduais”, afirmou. “O presidente (Rogério Caboclo) está analisando essa situação com muita prudência. Vamos aguardar o que vai acontecer mais na frente para definirmos um possível retorno”, salientou o dirigente, que suspendeu o Campeonato Paraense somente na última quinta-feira (19). A FPF-PA também deu férias coletivas aos seus funcionários. Presidente da Federação Paraibana de Futebol (FPF-PB), Michelle Ramalho disse que ouviu da entidade que o formato do Brasileiro pode mudar.

Sem sugestões

Nenhum dirigente quis opinar sobre sugestões de mudanças nos formatos das competições nacionais quando forem retomados. “O (Campeonato) Brasileiro precisa ser privilegiado. Se der para encaixar os Estaduais, será bom para dar pontos finais a eles. Uma sugestão é que os grandes utilizem os times sub-23. Mantém os clubes menores em ação e não estraga os campeonatos”, opinou o comentarista Sérgio Xavier, do Sportv.

A sequência dos Estaduais e possíveis mudanças nos formatos de disputa dos torneios nacionais dependem diretamente do controle do coronavírus no País. “É difícil falar em formatos quando não se sabe quais campeonatos vão ser disputados. Brasileiro com pontos corridos já é muito difícil (são 38 rodadas). Talvez um turno só, com 19 jogos, com playoffs entre os oito primeiros colocados. Ficaria mais curto, mas é uma possibilidade. Dá também para dividir em dois grupos de dez times e cruzar os melhores classificados em duelos mata-mata. A melhor forma será aquela escolhida em função do tempo que vai restar”, avaliou o jornalista Paulo Calçade, da ESPN Brasil.