Em sua terceira experiência olímpica, a segunda como competidora, a lutadora goiana Laís Nunes, de 28 anos, aposta na maturidade e no bom momento para sonhar alto. Embora reconheça o nível de dificuldade que terá em Tóquio, nas próximas semanas, a atleta embarca para o Japão, neste domingo (18), com o objetivo de voltar com uma medalha no peito. Ela é o principal nome brasileiro do wrestling nestes Jogos Olímpicos.

Uma das melhores do mundo na categoria até 62kg, Laís Nunes conheceu o esporte em um projeto social desenvolvido no interior de Goiás, em Goianésia, e que encontrou o talento da jovem no município de Barro Alto, cidade de cerca de 10 mil habitantes, a 195km de Goiânia, em 2006. Inicialmente, o projeto era voltado para a prática do judô, mas, por falta de recursos, migrou para a luta olímpica. Era o destino de Laís Nunes.

Com destaque desde os primeiros treinos no projeto social, Laís Nunes precisaria se mudar de Barro Alto para ver a carreira decolar. Aos 15 anos, a lutadora goiana deixou a pacata cidade interiorana para se aventurar pela megalópole paulista quando foi contratada para competir pelo Sesi-SP. Antes, ainda morou em Brasília e no Rio de Janeiro.

O início da trajetória no Sesi, de Osasco, foi desafiador para Laís Nunes. Com dificuldades para receber os salários, a atleta passou por dificuldades. Outro adversário foi o frio. No Vale do São Patrício, em Goiás, raramente as temperaturas baixam tanto como na Grande São Paulo.

A perseverança de Laís Nunes fez com que obstáculos fossem superados, um a um. A saudade de casa e da família, em Barro Alto, também fez com que a lutadora pensasse em desistir do sonho que era seu e de seu pai, Geraldo José de Oliveira: vê-la em uma Olimpíada.

Os bons resultados no tapete de wrestling fizeram com que Laís Nunes insistisse. Ela é, até hoje, a única lutadora brasileira a acumular títulos pan-americanos da modalidade nas categorias júnior, cadete e adulto.

O sucesso nas competições locais e continentais fez com que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) apostasse em Laís Nunes. Foi neste contexto que a lutadora foi escolhida para participar do projeto Vivência Olímpica, que levou para os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, 16 atletas de diversas modalidades para experimentarem o ambiente olímpico antes de competir nos jogos do Rio-2016. Além de Laís, nomes como Thiago Braz (salto com vara), Isaquias Queiroz (canoagem), Felipe Wu (tiro), Martine Grael (vela), medalhistas no Rio, estiveram na capital britânica neste mesmo projeto.

Na Olimpíada seguinte, Laís Nunes estreou em disputas na Olimpíada e foi eliminada logo na estreia. O 15º lugar nos Jogos disputados no Brasil não desanimou a lutadora goiana. Hoje, a atleta se vê mais madura e pronta para disputar um lugar no pódio. Amiga e companheira de wrestling desde 2006, a goiana Kamila Barbosa faz essa leitura do momento de Laís Nunes.

“Ela deu um salto gigantesco, cresceu e se desenvolveu muito ao longo desses cinco anos. Fez um trabalho muito bom com o professor Nisdany (Pérez), um trabalho de excelência. Ela não cresceu somente dentro do tapete, não. Fora, também. Está mais confiante, mais consciente de todo o trabalho e pronta para conquistar uma medalha para ela e para todos nós, brasileiros”, comentou Kamila.

Sem vaga olímpica, Kamila terá de acompanhar Laís Nunes à distância, mas garante que a torcida e a vibração por uma grande campanha da amiga estão garantidas. “Nesse momento, é rezar e emanar vibrações positivas. Claro que temos o nosso contato, mas temos de continuar na naturalidade, nada muda, é só mais uma competição. Já tem gente demais pressionando, cobrando e, às vezes, amigos falando uma palavra que, neste momento, soa de forma errada. Mas com certeza vai rolar uma surpresinha boa, do jeito que ela gosta”, disse a lutadora goiana, de Goianésia.

No Japão, Laís Nunes terá a companhia de Edvanílson Conceição de Jesus, de 21 anos, que será o sparring (auxiliar de treinos) da goiana na preparação final para a competição olímpica. Edvanílson tem história parecida com a de Laís, pois saiu de casa, no interior do Sergipe, aos 15 anos para tentar a sorte no esporte e encontrou Laís em São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde os dois treinam.

Laís Nunes escolheu Edvanílson para levar ao Japão por afinidade e porque foi o lutador sergipano que esteve com ela durante todo o período de pandemia da Covid-19, o que foi importante na preparação durante um período cercado por incertezas.

“Treinar com a Laís, desde o início da pandemia, foi muito bom porque aprendi bastante com ela, pude ajudar na preparação dela. Agora, estou tendo o privilégio de viajar com ela. Vai ser uma experiência muito boa para mim, pois estarei também com muitas pessoas que sempre admirei pela televisão. Vai ser muito bacana”, comemorou Edvanílson, que disse que sonha em chegar a uma Olimpíada, como fez Laís Nunes, e valorizou a oportunidade de sentir a experiência olímpica antes de conquistar o sonho de fato.

“Ela (Laís) não sabia se teria Olimpíada, mas, mesmo assim, continuou se preparando e eu estava lá ajudando. Nós tínhamos uma rotina de treinos na casa dela, treinávamos pela manhã, almoçávamos e ficávamos para o treino da tarde. Era essa a nossa rotina até poder voltar a ir para os tapetes novamente”, lembrou Edvanílson, sobre o período em que Laís Nunes treinou em casa no início da pandemia da Covid-19.