Com menos de um mês de paralisação dos campeonatos no futebol brasileiro, o tamanho do prejuízo para clubes, empresas, atletas e entidades envolvidas com o esporte é imensurável. O impacto da pandemia que o novo coronavírus deixará é preocupação é global e mexerá com a estrutura em todas as suas esferas. A reportagem do POPULAR ouviu consultores especialistas em finanças do esporte de empresas que são referência no ramo. A projeção é de um cenário complicado para a retomada do estágio de antes da Covid-19.

O momento ainda é de leitura do cenário e sem a possibilidade de calcular o impacto final da pandemia. O exercício é avaliar como o futebol poderá retomar sua normalidade no futuro. Essa projeção pode ajudar os clubes a atravessar o momento de crise com passos mais seguros.

Os clubes que já possuem saúde financeira melhor e, mais do que isso, modelo organizado de gestão podem sofrer menos impactos e até conseguir mudar de prateleira no âmbito competitivo entre os clubes.

“Os clubes mais organizados têm os números financeiros, como fluxos de caixa, orçamento etc, facilmente elaborados como ferramenta de gestão, pois trabalharam para isso. Tais clubes conseguirão se adequar melhor do que os que são mal administrados, que sequer conseguem ter as finanças em dia, mesmo antes dessa crise”, ponderou Carlos Aragaki, sócio líder da Área de Esporte Total da BDO, empresa de consultoria.

“Os clubes que têm um fôlego maior de caixa e que têm um fluxo mais folgado em relação aos outros tendem a sair mais rápido e ter uma vantagem competitiva em relação a quem estava afogado. Quem estava mais apertado pré-Covid-19, certamente não está conseguindo honrar seus compromissos de curto prazo”, frisou Pedro Daniel, de 34 anos, diretor executivo e líder da área de esportes da Ernst & Young.

Para Fernando Ferreira, de 43 anos, sócio diretor da Pluri Consultoria, a crise provocada pela pandemia do coronavírus não muda a tendência, mas acelera o processo. “Vai ficar mais evidente do que nunca. Os clubes mais estruturados, mais organizados e com pessoas mais capacitadas vão passar por isso de uma forma melhor. Muitos vão convocar a torcida para se associar, mas isso terá pouco peso sobre o problema total. Os torcedores são cidadãos e já terão muitos problemas. A hierarquia do futebol vai mudar um pouco mais, ela vai ser ditada pela condição financeira, que dita a capacidade de investimento.”

Para os analistas, a readequação no mercado do futebol como conhecemos atualmente será ampla e uma reação em cadeia, afetando vários níveis envolvidos na indústria do esporte. “Existirá uma readequação da indústria como um todo. É muito preocupante porque estamos falando de uma crise de liquidez de uma indústria global, não apenas de um mercado especificamente. Isso afeta direta e indiretamente toda a cadeia. Quando você não tem evento, não tem as receitas diretas, não consegue vender para os detentores de direitos, que, por sua vez, não conseguem vender para os anunciantes. É uma reação em cadeia”, explicou Pedro Daniel, consultor da EY.

Fechar as portas

Para Fernando Ferreira, a crise vai aumentar a desigualdade já existente entre os clubes. O consultor lembrou que a dificuldade financeira vai pesar mais sobre as equipes menores que não possuem calendário anual. Para ele, a possibilidade de encerramento de atividades de vários clubes é grande.

“O panorama vai mudar, a hierarquia vai mudar. Provavelmente, os grandes vão aumentar sua diferença para os menores. Quem vai sofrer mais, principalmente se não tiver algum tipo de assistência, são os clubes menores, os atletas que ganham menos”, afirma. O especialista traduz a desigualdade em números. “Quando você olha para o futebol brasileiro, você tem 648 clubes que jogam futebol profissional, ou próximo disso, sendo que desse número você tem 60 clubes com calendário anual. Os outros, que jogam por períodos de 45 a 120 dias, que já têm uma situação financeira difícil, vão ter um agravamento incrível desta realidade. Vamos ver o maior número de encerramento de atividades de clubes”, ressaltou Fernando Ferreira, da Pluri Consultoria, que salientou que, nos últimos dez anos, 58 clubes encerraram suas atividades no Brasil.

Para Carlos Aragaki, consultor da BDO, o impacto será grande também na janela de transferências de jogadores. A negociação de atletas, ativos de um clube de futebol, poderá ser uma boa saída para reorganizar as finanças dos clubes. No entanto, o fluxo de dinheiro envolvido nessas negociações deve sofrer queda considerável.

“É uma alternativa viável (a negociação de jogadores). A grande questão é quem vai comprar e por quanto. Os clubes europeus pagam bilhões em remunerações e estarão se ajustando pós-crise. É previsível que o apetite para contratar jogadores aos preços significativos diminua”, ressaltou Aragaki.