A discussão sobre o adiamento dos Jogos Olímpicos se torna cada vez mais urgente. Apesar do Comitê Olímpico Internacional (COI) bater na tecla de manter as datas previstas, a comunidade esportiva pressiona. Além da preocupação com a saúde mundial, em meio a uma pandemia, a alegação de que os atletas chegarão a Tóquio mal preparados é cada vez mais forte.

Essa é a visão do jornalista Guilherme Costa, do Sportv, que é especialista na cobertura dos esportes olímpicos.

“Para mim, a saúde mundial tem de estar em primeiro lugar e qualquer escolha tem de colocar isso como primordial. Pensando no esporte, no desempenho dos atletas, a melhor escolha é fazer a competição em 2021, para que os atletas tenham uma temporada inteira para se preparar. Se for em julho, os atletas vão chegar mal preparados. Se for em outubro, a preparação estará prejudicada, mas ao menos eles teriam um pouco mais de tempo para treinar”, avaliou.

Para outro especialista no assunto, o jornalista Demétrio Vecchioli, do Uol, o COI deve dar o braço a torcer quanto ao adiamento.

“É questão de tempo que os Jogos Olímpicos sejam adiados. Peguemos o exemplo da Laís (Nunes). Nem quando as coisas melhorarem é recomendável que ela faça treino específico de wrestling, o agarramento, que depende de contato físico. Ela não vai chegar a Tóquio bem preparada. Nem ela nem ninguém. É pior ainda em esportes que dependem de um ciclo mais preciso de preparação para chegar ao auge da forma, como atletismo e natação. Adianta ter uma Olimpíada sem ninguém correr os 100 metros abaixo de 10 segundos? Para vencer o menos pior? Acho que não. E o COI, cedo ou tarde, vai entender isso”, salientou Demétrio.

Para Flávio Canto, ex-judoca brasileiro, os Jogos de Tóquio já estão na história. “Ficarão marcados para sempre na história, se acontecerem esse ano ou no ano que vem. Vai ser a Olimpíada da pandemia, em que todo mundo teve de se adaptar por causa das restrições e mudanças”, frisou o ex-atleta.

Para Flávio Canto, os valores do olimpismo - a amizade, a compreensão mútua, a igualdade, a solidariedade e o jogo limpo - estarão em voga mais do que nunca no Japão, pois as pessoas enxergarão o mundo de uma nova perspectiva após essa pandemia.

Para ex-judoca, momento é de ressignificação

A participação em uma Olimpíada é um momento único para qualquer atleta. Para muitos, se torna o apogeu da carreira. No entanto, essa importância pode ser colocada em segundo plano, sobretudo quando a questão maior é a saúde.

O ex-judoca brasileiro Flávio Canto, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, sentiu isso na pele durante a preparação para a competição na Grécia.

O judoca precisou abandonar seus treinos para acompanhar a recuperação do pai, que sofreu enfarte. Naquele momento, o sonho olímpico ficou em segundo plano.

“Na Olimpíada que eu ganhei medalha, meu pai teve um enfarte a dois meses da Olimpíada e quase morreu. Ele ficou um mês esperando para fazer uma cirurgia. O período que antecedeu aquela Olimpíada me lembra um pouco esse, para quem está competindo. Olimpíada era a coisa mais importante e, de repente, passou a ser algo secundário”, lembrou Flávio Canto em entrevista ao POPULAR.

Para o medalhista olímpico, o mundo observa um fenômeno inédito para a atual geração. Para ele, a pandemia do novo coronavírus vai mudar a forma como as pessoas enxergam o mundo e seus significados. “Naquele momento (em 2004), eu ressignifiquei a Olimpíada. Acho que vivemos um momento de ressignificação também.”