Indústrias e produtores rurais que utilizam a bacia hidroviária Tietê-Paraná podem ter que pagar mais caro para transportar grãos e derivados para os portos localizados na Região Sudeste do País. O motivo está na pior seca dos últimos 40 anos, que está reduzindo drasticamente o nível da bacia e ameaçando a navegabilidade para as barcaças que levam toneladas de grãos até o Porto de Pederneiras, em São Paulo. Se o transporte rodoviário, que tem custo bem maior, tiver que ser utilizado, o produtor receberá menos pelos grãos que vender.

Do porto de São Simão (GO) até o local são 2.400 quilômetros de hidrovia. Em Pederneiras é feito o transbordo e os produtos seguem de trem até o porto de Santos (SP). Apesar do transporte ser pago pelo comprador, a cotação considera o preço do produto no porto. Isso significa que as despesas com transporte acabam descontadas do valor pago. “No final, isso significa menos renda nas mãos do produtor”, alerta o presidente da comissão de cereais, fibras e oleaginosas da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg), Enio Fernandes.

As barcaças levam mais de 2,5 milhões de toneladas anuais de grãos até Pederneiras. 
Para o presidente do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), Célio Eustáquio de Moura, este é um dos principais problemas de infraestrutura de transportes no País hoje, pois trata-se de um dos poucos rios adaptados para navegação.

Segundo ele, o grande problema está na falta de investimento no canal de Nova Avanhandava, no Rio Tietê, que já foi licitado anteriormente, mas a empresa realizou apenas 20% das obras e faliu. Por isso, será preciso uma nova licitação para a obra de mais de R$ 300 milhões, uma solução para médio prazo. “O canal precisa ser afundado por meio de derrocamento para aumentar o calado em 2,4 metros, um nível que possibilita a navegação”, explica.

Célio lembra que as empresas que utilizam a hidrovia fizeram altos investimentos, como em portos e barcaças, e precisam ter a segurança operacional de seu uso constante. Segundo ele, uma solução mais imediata para evitar os prejuízos da paralisação da navegação seria administrar o uso do recurso hídrico, limitando a geração de energia em usinas como a Três Irmãos. “A água deve servir a todos e já foi feito um pedido à Agência Nacional de Águas (ANA) para esta a racionalização neste momento para que o transporte não pare”, ressalta.

Vale lembrar que a hidrovia teve a navegação interrompida durante 22 meses entre os anos de 2014 e 2016, o que causou muitos prejuízos. “As empresas já fizeram pesados investimentos para usar a hidrovia e, agora, não é justo que tenham que gastar mais em outros modais, como o rodoviário, que tem custos mais altos e eleva os riscos de acidentes”, afirma o Célio.
Caso a navegação na hidrovia seja interrompida, Enio Fernandes, que também é consultor de Mercado da Terra Agronegócios, acredita que o problema só não será maior por conta da quebra prevista na segunda safra. “A expectativa era exportar algo em torno de 35 milhões de toneladas de milho, mas o mercado interno está pagando mais e este montante deve ficar entre 20 e 25 milhões de toneladas”. Com os melhores preços do óleo de soja no mercado, hoje a indústria está pagando bem mais.

Enio reconhece que sempre que um modal de transporte sai de cena, os custos são elevados. Empresas como a gigante Caramuru, que utilizam muito a Tietê-Paraná seriam muito afetadas. “Mas os bons preços no mercado interno devem amenizar isso até o fim do ano”, prevê.