A crise provocada pela pandemia de Covid-19 transformou, em poucas semanas, as relações de trabalho no Brasil e deve deixar marcas mesmo após o fim do período crítico de contaminação da doença. Desde março, quando o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais começaram a incentivar o isolamento social como medida preventiva, empresas de diferentes segmentos começaram a sugerir ou determinar que seus funcionários realizem suas tarefas em casa. O aumento da produtividade e a diminuição de custos estão entre os motivos que levam empresários a planejar a continuidade da estratégia mesmo após a crise.

A rotina da engenheira e analista de incorporação da Consciente Construtora Érika Meire Oliveira Sattler, 32 anos, mudou completamente no dia 18 de março, quando ela começou a trabalhar em casa. Com o marido também em home office, a rotina da família teve que mudar, com novos horários para as tarefas domésticas e período de trabalho mais extenso, para compensar os intervalos em que a atenção é destinada ao filho de 2 anos.

“Levei um tempo para me acostumar, mas como meu trabalho é técnico, consigo resolver tudo com computador, telefone e acesso à internet. Em alguns momentos eu sinto falta de solucionar questões em uma conversa presencial, mas trabalhar em casa alguns dias da semana poderia se tornar parte da minha rotina normal”.

Ivanilson Ribeiro, coordenador administrativo na empresa em que Érika trabalha, diz que houve dificuldade de adaptação por uma parcela dos colaboradores, mas, no geral, o resultado é positivo. “Toda essa situação difícil está servindo para acelerar a transformação digital dentro das organizações.” De acordo com o coordenador, a Consciente investiu em tecnologia para tornar o trabalho à distância possível e, após a crise, existe possibilidade de o teletrabalho continuar para uma parcela dos colaboradores ou em rodízio. A empresa constatou redução de custo e aumento da produtividade desde o início da quarentena.

A adoção ao teletrabalho foi simplificada por meio de medida provisória, que entrou em vigor em março e permitiu o início do sistema 48 horas após aviso feito pelo empregador. A modalidade havia sido regulamentada na reforma trabalhista, aprovada em 2017. O texto da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) determina que o teletrabalho precisa constar no contrato assinado entre empregado e colaborador. Vale lembrar que as mudanças só têm validade enquanto durar a crise provocada pelo coronavírus.

Alternativa

Na Coming, indústria de couros voltada para a exportação, todos os funcionários administrativos estão trabalhando de casa para evitar a contaminação por coronavírus. Segundo o proprietário, Emílio Bittar, com reuniões diárias às 17 horas, o setor tornou-se mais eficaz, o que foi uma surpresa para a diretoria.

“Não fazíamos reuniões com todos os setores mesmo quando estávamos todos no mesmo lugar. É possível que continuemos com cerca de 50% do pessoal em home office mesmo após a crise. Acredito que existe ganho para todos os lados, já que a indústria fica em Trindade e muitas pessoas que moram em Goiânia ou outras cidades perdiam tempo no deslocamento.”

Apesar de acreditar que as experiências de trabalho criadas pela crise do coronavírus devem mudar as relações trabalhistas, o presidente do Conselho Temático de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias de Goiás (CTRT/Fieg) e dono da Goiarte, Marley Rocha, diz que o Brasil ainda precisa investir em comunicação para ter êxito nesta área. “Temos problemas de internet e a própria comunicação por telefone ainda é ruim. Essa nova realidade ainda é distante para algumas empresas que precisam investir muito em tecnologia. Teremos que esperar a alguma normalidade para fazer uma avaliação mais concreta sobre isso”, diz.