O isolamento social, realizado para evitar avanço do coronavírus, levou a um grande aumento do consumo de internet e mudou os padrões. Como muitas pessoas precisam de conexão para home office e aulas remotas, a demanda que era maior à noite, agora se mantém alta também durante o dia. O fenômeno, porém, pega redes de alguns provedores já no limite de atendimento.

Decretos do governador Ronaldo Caiado (DEM) restringiram o funcionamento das atividades econômicas não essenciais e houve suspensão de aulas no Estado. Isso fez o pico de tráfego de internet dobrar em Goiânia em comparação com o que ocorreu em março de 2019, segundo o que foi registrado apenas pela IX.br, que é uma iniciativa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Na sexta-feira passada, a capital goiana teve maior pico do ano, média de 7 Gigabits por segundo (Gbps) somente na estrutura da IX.br. Mesmo com mais pessoas online e uma quantidade maior de conteúdo consumido, especialistas defendem que há capacidade de suportar. Porém, as empresas terão de trabalhar mais para atender o momento atual. Ou acontecerão problemas mais frequentes.

O que nesta semana já começou a ocorrer em Goiás. O diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br, Milton Kaoru Kashiwakura, explica que dependendo da rede de acesso podem ocorrer falhas. “Provedor que estava preparado para o dia a dia, sem folga de capacidade, passará uma percepção ruim aos seus usuários ao ter um aumento de demanda, pois ele terá menos banda efetiva para atender.”

Ele pontua que a internet brasileira cresceu 60% em 2019 e 25% no último trimestre antes da Covid-19. A nova realidade com a doença levou ao crescimento em torno de 20% no pico de uso, que ocorre por volta das 21 horas. O IX.br atingiu a marca de 11 Terabit por segundo (Tbps).

Um recorde que era esperado para maio. “Dificilmente se atinge esses valores e de fato o coronavírus acabou antecipando esse pico”, explica.

Capacidade

Há capacidade para suportar o maior uso de internet, mas as operadoras enfrentam dificuldades para acompanhar o que os usuários necessitam. Um dos maiores é a logística por conta das restrições de governos impostas para a própria atividade neste momento e até questões como as licenças de instalação de antenas.

Para Milton, do NIC.br, não há degradação perceptiva. “Estamos com bom desempenho, vamos acompanhar.” O aumento que foi antecipado é considerado natural e avalia que ocorria porque o País ainda não conseguiu incluir toda a população na parcela que possui acesso à internet. O que era esperado como natural é antecipado com maior uso de banda e ao mesmo tempo, por isso parte da rede já consegue atender e outra, não.

O nível da demanda de sexta-feira e do final de semana passados em Goiânia não foi repetido durante a semana. Milton relata que ocorreram problemas isolados em redes, o que conteve o aumento do tráfego.

Na casa do estudante Arthur Araújo de Oliveira, de 20 anos, a quarta-feira (25) foi de dor de cabeça por conta da internet. Ele teve dificuldade para realizar exercícios da aula remota da faculdade. A mãe, que trabalha em home office, não conseguiu realizar as atividades.

Com os dois, ainda há necessidade de conexão do pai e da irmã. “A Net caiu à tarde e atrapalhou muito, tive de usar minha internet móvel”, conta. A família vivenciou um pouco do que as empresas correm para evitar. Nesse caso, a Claro informou por nota que a instabilidade ocorreu em função de um ajuste em provedor e não tem relação com aumento do tráfego. “A operadora conta com uma rede moderna e está preparada para atender a demanda”, diz texto.

Já em nota conjunta, as empresas de telecomunicações do Brasil informaram que trabalham de forma conjunta e coordenada para atender a população e que vão adotar uma série de medidas emergenciais para garantir a conectividade. Medidas mais efetivas já foram cobradas pela Agência Nacional de Telecomunicações.

“O problema não é aumento de tráfego mas a hora de maior uso, que ocorre à noite, por causa do streaming de vídeo”, avalia o consultor da Teleco, Eduardo Tude. Assistir vídeos online, jogos e baixar grandes arquivo é um problema tanto para a rede como um todo como para a “divisão” da internet nos lares.

A recomendação é para uma economia de entretenimento nos horários comerciais para que não atrapalhe quem precisa trabalhar ou estudar. O que poderiam deixar para período da madrugada até às 10 horas.