Na tentativa de manter a estabilidade dos negócios em meio à crise provocada pelo fechamento de parte do comércio, empresários mudaram a linha de produção de indústrias para atender demandas provocadas pelo avanço da contaminação de coronavírus e pelas medidas preventivas determinadas pelo governo de Goiás. Mesmo com a estratégia, não existe expectativa para grandes lucros no período, principalmente por causa do pagamento de horas extras para funcionários e aumento no custo de insumos.

Decreto publicado pelo governo de Goiás na sexta-feira (20) suspendeu a operação de cerca de 75% da indústria goiana até o dia 4 de abril. Estão permitidas apenas atividades de fornecimento de produtos e prestação de serviços essenciais à manutenção da vida humana e animal.

O empresário Akison Miranda é dono da Goiás Brasil Uniformes há 11 anos. A fábrica, localizada em Anápolis, tem entre os principais clientes empresas da construção civil, logística, oficinas e transportadoras. O aumento nas vendas nos supermercados, provocado pelo isolamento social sugerido pelo Ministério da Saúde, levou à maior produção de alimentos nas indústrias. Com isso, a demanda por uniformes para colaboradores deste setor também cresceu.

Há pouco mais de uma semana, Akison e seus 35 funcionários estão produzindo para atender exclusivamente indústrias de alimentos, medicamentos, coleta de lixo e segurança, por exemplo, que são mercadorias e serviços considerados essenciais à vida. “Eles estão mais preocupados com a higiene porque a produção cresceu. Os colaboradores precisam trocar de uniforme mais vezes por dia.” A empresa de Akison também passou a fabricar máscaras. A produção do material foi dividida entre venda e doação.

De acordo com o empresário, a linha de produção diversificada não deve aumentar o lucro, apesar de ajudar a estabilizar o negócio. O futuro, diz Akison, é incerto. “Os insumos estão acabando. Existe demanda por tecido, linha e elástico, por exemplo. Tenho estoque, mas não sabemos quanto tempo essa situação vai durar. Se for muito tempo e meu produto acabar, vou ter que parar”.

Produção

O aumento da demanda por álcool em gel (usado na higiene das mãos, superfícies e equipamentos) mudou a rotina na fábrica de Renato Abdala, proprietário da indústria de cosméticos Francefarma, localizada em Aparecida de Goiânia, há 4 anos. “Nós produzíamos cerca de uma tonelada de álcool em gel por mês e agora estamos fazendo cerca de 10 toneladas por dia. A linha de produção funcionava entre 7 e 17 horas, mas estamos indo até 22 horas.”

De acordo com Renato, a dificuldade para encontrar insumos no mercado, como frascos e tampas de plástico, pode prejudicar a produção. Além disso, o carbopol, elemento químico essencial para fazer o álcool em gel, está em falta. “Estou dando prioridade para os comerciantes de Goiás, mas tem muitos empresários de outros Estados que estão praticamente implorando”, conta.

A linha de produção na empresa tem 32 funcionários. Três foram contratados para reforçar a equipe. “É uma estratégia para não fechar as portas. Só vou saber mesmo se deu lucro ou prejuízo no final.”

A empresa de cosméticos Cosmefar, onde Lino Ferreira é diretor-executivo, também começou a produzir álcool em gel. Com a demanda alta, a indústria também fica limitada pela falta de embalagens. “Não estamos fazendo investimentos desnecessários. Já tínhamos todas as licenças e estamos fabricando com o que temos”, diz.

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha, explica que o problema ocorre pelo aumento repentino da demanda. Como as fábricas já tinham parte significativa da produção comprometida, não foi possível se adequar rapidamente e ter material disponível para todos. “Não é possível produzir mais de uma hora para outra. Existem gargalos. É como trocar o pneu de uma bicicleta com ela andando.”