As despesas com fumo registraram o maior percentual de crescimento entre 2014 e 2019 em Goiás, de acordo com o estudo Potencial de Consumo do IPC Maps: 81% de avanço. Esta expansão foi maior que em despesas essenciais, como medicamentos, alimentação e educação. Enquanto muita gente luta para abandonar o vício do tabagismo, por medo dos danos à saúde, outros estão aderindo a instrumentos mais caros, como o narguilé, que tem procura crescente no País.

Mas este incremento dos gastos na categoria não é uma realidade só de Goiás, garante o diretor do IPC Marketing, Marcos Pazzini. Ele lembra que o forte índice de aumento destas despesas foi motivado por instrumentos, como os cigarros eletrônicos e, principalmente, o narguilé, que teve uma forte expansão em especial entre o público mais jovem. “É um apetrecho caro, que exige investimentos em equipamentos, essências e num carvão próprio para ele, que tem um custo mais alto. Com as preocupações dos momentos de crise, as pessoas também tendem a fumar mais”, destaca Marcos.

Goiânia abriga cada vez mais tabacarias e lounges que oferecem o consumo de narguilé. São os chamados “Hookah”, que chegam a receber até 500 clientes por noite. O gerente da Smoking Bear Tabacaria, Alexandre Coelho, informa que muitas destas pessoas nunca tinham fumado antes e adquiriram este hábito através do narguilé, ao invés do cigarro comum. “Ele se tornou um acessório a mais para pessoas abertas a novas experiências curtirem a balada”, avalia Alexandre. Cada sessão de narguilé, que leva entre 40 minutos e uma hora, custa entre R$ 25 e R$ 65, dependendo da essência usada.

Mas é preciso ter cuidado, pois a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde já emitiram alertas sobre os perigos desta forma de tabagismo. De acordo com a OMS, uma hora de narguilé equivale à absorção de todos os componente tóxicos da fumaça de 100 cigarros. Segundo o Ministério da Saúde, ao contrário do que muita gente pensa, o narguilé pode causar diversas doenças, como câncer de pulmão, de boca e bexiga e doenças respiratórias.
Crise

A expansão das despesas das famílias brasileiras sofreu influência direta da crise econômica, que começou no fim de 2014. Com exceção do fumo, os gastos que tiveram maior crescimento nos últimos cinco anos foram com produtos e serviços mais essenciais, como transporte urbano, medicamentos e alimentação. “Com a crise, houve um maior peso sobre as despesas básicas. Com isso, sobrou menos dinheiro para aquelas consideradas mais supérfluas”, explica Marcos Pazzini.

Entre as despesas que menos cresceram no período, estão os gastos com materiais de construção, matrículas e mensalidades escolares. Com a recessão e o aumento do desemprego, houve um recuo do mercado imobiliário, as pessoas reduziram os gastos com planos de saúde e muitas famílias foram obrigadas a tirar seus filhos de escolas particulares para adequar o orçamento. Marcos lembra que o consumidor também reduziu os gastos com veículos próprios e aderiu aos serviços de transporte urbano, como ônibus, lotação, trem, metrô e até o uso de aplicativos, como o Uber. Uma prova disso foi a redução na venda de veículos no período.

As despesas com viagens cresceram bem menos que a média, pouco mais de 32%, enquanto os gastos com recreação e cultura avançaram apenas 34%. O economista Aurélio Trancoso, coordenador do Centro de Pesquisas Econômicas e Mercadológicas (Cepem) da UniAlfa, lembra que a crise sempre leva as famílias a cortarem despesas, começando por supérfluos. “Mesmo com a inflação mais baixa, as incertezas do mercado sempre fazem o brasileiro evitar gastos com produtos menos essenciais”, destaca.

O desemprego (ou o medo dele), que levou as pessoas a priorizarem o essencial, como alimentos e remédios, pesou nas decisões de consumo. “Muita gente precisou se desfazer da TV por assinatura, plano de saúde, da escola particular e reduzir a alimentação fora do domicílio. Foi preciso fazer o máximo para adequar o orçamento”, explica o economista. Ele lembra que muitas famílias só chegam ao final do mês no cartão de crédito.