O novo normal imposto pela pandemia de Covid-19 evidencia a necessidade de investir em tecnologias para automação agrária e nas demais etapas da cadeia produtiva de alimentos, entre elas, a seleção, o transporte e a distribuição do atacado ao varejo, para diminuir riscos aos trabalhadores e também evitar desabastecimento. O alerta é feito pelo pesquisador e professor da Universidade Federal de Goiás e membro do Instituto dos Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas (IEEE), Fabrizzio Soares, que há um ano está nos Estados Unidos onde é chefe do Departamento de Computação da Universidade do Sul do Oregon (SOU). Em entrevista ao POPULAR, ele fala sobre inovação em Goiás, apontando entraves na importação de insumos eletrônicos e pouco investimento.

Abastecimento

Existe investimento em tecnologias para automação e mecanização agrária há vários anos. Mas a pandemia traz preocupações, e uma questão que preocupa é a do desabastecimento. No Brasil, não aconteceu, mas ainda não temos vacina e estamos vendo novas ondas de contaminação. Há risco de produtos cotidianos começarem a desaparecer das prateleiras. Já existe muito investimento, por exemplo, em como monitorar a plantação. Porém, precisamos pensar da plantação à prateleira do supermercado. Como isso pode ser resolvido? Existem equipamentos para colheita, especialmente de grandes plantações, nas de pequeno porte é mais difícil, é um tipo muito dependente da coleta manual, o custo do maquinário fica inviável em culturas pequenas. Temos iniciativas da chamada agricultura vertical, em que você tem andares, ao invés de ter ampla plantação. Como se fossem prateleiras que poderiam ser removidas com uso de empilhadeira, aí, uma pessoa só manipula a empilhadeira ou se usa uma empilhadeira robotizada, fazendo a colheita para levar para a próxima etapa, que também ainda depende muito da participação humana, a seleção. Embora já existam equipamentos que fazem seleção por cor, análises clínicas de odores, esteiras, câmeras, monitoramento e uma série de outros instrumentos que vão ajudar na verificação da qualidade do alimento. Definir se vai para descarte, suco, produção de adubo, dependendo da qualidade vai para exportação, varia muito. Depois têm as etapas de industrialização ou empacotamento, e depois a distribuição, levar para os caminhões. De novo: cada produto tem sua particularidade nesse processo, há produtos que não são empacotáveis, por exemplo. E ainda o produto indo para as distribuidoras e daí aos supermercados, onde tem de ser colocado nas prateleiras e é preciso monitorar a venda, para saber se precisa repor estoque. Tem toda uma cadeia que precisa de pessoas, e apesar de a tecnologia ter melhorado, ainda há risco de desabastecimento.

Tecnologia da informação

Vamos ter de nos habituar ao novo normal. Mas, independente do desfecho da pandemia, o que tem sido impulsionado por ela já eram tendências, como o home office, em que houve redução de custo para empresas e uma flexibilização da jornada de trabalho. No campo, são muitos maquinários em processo de pesquisa e desenvolvimento, ou que vão ser desenvolvidos, nas áreas de engenharia, computação e ciências aplicadas, e também percebe-se a importância do operador que vai controlar os equipamentos remotamente, que acompanha e monitora à distância. Com certeza, o investimento maior de grandes empresas durante a pandemia, Google, Microsoft, Facebook, Amazon, resultam em mudanças nos mecanismos de monitoramento, armazenamento em nuvem, reuniões remotas. Tudo isso pode ser levado também ao campo.

Georreferenciamento

Paramos de depender de depender de demarcadores naturais, como rios, e de linhas imaginárias sem exatidão, o que faz com que a área no campo seja definida claramente. A popularização do GPS, com o baixo custo, levou ao desenvolvimento de novos equipamentos. Por exemplo, há vários anos existem pesquisas de equipamentos para traçar rotas de linhas de plantio, fazer análise de solo para que se possa entrar ali com estressante hídrico ou algum aditivo que vai contribuir para a plantação. Tudo isso pode ser robotizado porque se consegue uma definição clara de rotas a partir do georreferenciamento. Também tem sido utilizado bastante para comandar drones para coleta de imagens conforme estabelecido no plano de voo. Na visão computacional, o processamento de imagens tem sido grande contribuição, porque existem sensores extremamente interessantes, como sensores de calor, de umidade. Também as câmeras ficaram muito mais baratas. Podemos tirar fotos da plantação e fazer análise de imagens de folhas para ver se há ferrugem asiática, larvas ou invasores indesejados, ervas daninhas, algum outro ataque. Sem esses instrumentos, a inspeção tinha de ser feita 5% pelo ser humano, que tem de trafegar pelo meio da plantação, com vários problemas, por estar se expondo, correndo riscos, com custo alto e tempo maior. Agora se entra com robô georreferenciado fazendo a rota pré-definida, o trajeto da máquina que semeia, depois irriga, o robô que passa analisando, coletando, tudo acompanhado de imagens monitoradas, tem também algoritmos para fazer a análise automática disso. Temos um projeto de doutorado monitorando fotos aéreas de drone georreferenciado em plantação de cana de açúcar, com análise automática para cálculo das falhas de plantação, porque se houver uma quantidade de falhas muito maior que um porcentual exigido, aquela plantação precisa ser derrubada para replantio senão o ganho da produção ali será baixo.

Internet das Coisas (IoT)

No ambiente agrícola, a Internet das Coisas entra muito na interação entre maquinários e sensores que vão ficar o tempo todo colocados numa plantação enviando informações para centrais de monitoramento, ou sensores que ficam ali e depois o robô passa fazendo coleta de dados sobre umidade, mineral no solo etc. Na verdade, Internet das Coisas foi um nome dado a elementos já usados com frequência. A gente já tem rastreamento de rebanho forte no Brasil, em que o animal recebe o brinco de identificação e depois tem as barreiras onde ele passa e se faz a leitura do brinco, ou passa por porteira onde tem profissional com bastão que vai fazendo coleta do brinco.

Custo da automação

O custo da automação é o de pesquisa e desenvolvimento, que se comparado ao custo da perda, mostrará que o da perda é sempre maior. Se houver investimento em pesquisas, teremos maior qualidade que agrega ganhos ao produtor. Mas esbarramos em certos fatores, como o custo de importação de insumos eletrônicos para construir protótipos, desenvolver maquinário. Temos dificuldade grande em importar microchips, memórias e dispositivos semicondutores vindos da China, porque a cotação do dólar é muito alta e muitas vezes se paga mais caro porque a negociação não é direta com o fabricante chinês, mas com intermediário americano. Não faz sentido pagar um preço para o público americano, com custo maior nosso, quando o produto vem de um terceiro, que é a China. Teria de haver uma política de comércio exterior com a China para viabilizar o produto ser importado em valores mais viáveis para o Brasil, e facilitar a entrada de condutores, semicondutores. Ao invés de ficar tentando nacionalizar uma produção que já é muito barata para a China, é melhor já entrar na etapa de tentar desenvolver dispositivos a partir de semicondutores importados de lá.

Inovação em Goiás

Existem em Goiás várias empresas na área de sensores, georreferenciamento, coleta de imagens, fotos aéreas utilizando drones para rastreamento e monitoramento, com custo acessível, principalmente se comparado ao custo de fazer de forma manual. Na produção de alimentos e no agronegócio, Goiás tem tido saldo positivo e acesso às tecnologias, estamos num mundo globalizado. Temos acesso a equipamentos e empresas que desenvolvem soluções. Não perdemos nada, na comparação com outros centros produtores, em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e empresas que prestam serviços nesse ramo.