Este ano começou mais difícil para os empreendedores goianos. Nos dois primeiros meses deste ano, oito empresas já entraram com pedido de recuperação judicial, um crescimento de 166% em relação ao mesmo período de 2020, quando apenas três empresas recorreram a esta ferramenta de proteção, segundo o Indicador de Falências e Recuperação Judicial da Serasa Experian. A principal razão é o vencimento de dívidas postergadas e menos medidas de apoio aos negócios.

No ano passado, mesmo com as restrições impostas pela pandemia do coronavírus, o número de pedidos de recuperação judicial caiu quase pela metade em Goiás: de 40 em 2019 para 21 em 2020. De acordo com o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, embora 2020 tenha sido um ano economicamente delicado, com a facilitação de prazos feita pelos credores, juros mais baixos e novas linhas de crédito disponibilizadas, os donos de negócios recorreram menos à recuperação judicial.

Em todo Brasil, foram 1.179 requerimentos no ano passado, uma queda de 15% sobre 2019. Luiz Rabi lembra que, além do menor número de pedidos de recuperação, também houve uma queda da inadimplência no ano passado. “Isso não é comum num cenário de crise econômica, mas tivemos um pacote de auxílio financeiro sem precedentes, que fez toda diferença, incluindo queda dos juros, prorrogação de impostos, MP 936, fundos de aval e auxílio emergencial”, ressalta. Os bancos também adotaram uma postura mais flexível.

Agora, com o término das medidas de apoio às empresas, um auxílio emergencial bem menor e o vencimento de dívidas que haviam sido prorrogadas, um estudo da consultoria Alvarez&Marsal prevê que o número de pedidos de recuperação possa chegar a 1.800 no País, uma alta de 53% sobre 2020 e um patamar parecido com o registrado na crise de 2015 e 2016. Além disso, a expectativa é de inflação e juros mais altos.

“Se tivermos um pacote de auxílio, ele deve ser bem menor que em 2020. Por mais que o governo tente manter as medidas, nem todas virão com a mesma intensidade que antes”, prevê o economista da Serasa Experian. Ao mesmo tempo, o cenário é o mesmo: desemprego alto e economia sem crescimento.

Sucesso

O Grupo Irmãos Soares é um exemplo de empresa goiana que conseguiu muito sucesso em seu plano de recuperação judicial, que já está em fase de conclusão. Penalizado pela crise econômica de 2015 e 2016, que afetou muito o setor da construção civil, o Grupo Irmãos Soares buscou sua recuperação judicial em 2017, depois de ter gasto cerca de R$ 42 milhões nos três anos anteriores só com o pagamento de juros e encargos financeiros.

O advogado da empresa, Murilo Lobo, especialista em recuperação judicial, lembra que, quando iniciou a recuperação, a empresa tinha uma dívida de R$ 72 milhões com seus credores, que foi renegociada e quitada com imóveis, num processo de desmobilização. Toda parte tributária também foi sendo regularizada, de acordo com o advogado, com o recolhimento de R$ 68 milhões em impostos.

Os cerca de mil funcionários diretos e indiretos foram mantidos e a empresa iniciou uma trajetória crescente de vendas e rentabilidade. “O Grupo aproveitou bem esta oportunidade da lei e promoveu uma completa reestruturação, fechando lojas que não eram rentáveis e revitalizando as demais unidades, além de comprar apenas à vista para obter preços melhores e melhorar as margens”, conta.

Ainda em 2018, a empresa conseguiu reverter a trajetória de queda e passou a gerar resultados positivos. Segundo o advogado, em 2020, enquanto houve uma retração de 2,8% no PIB, a Irmãos Soares registrou um lucro de 400% em relação ao ano anterior. “A empresa resolveu completamente seu endividamento, não tem mais passivos tributários e manteve os empregos, numa verdadeira reversão de quadro”, destaca Murilo. Ele credita isso a um planejamento jurídico adequado e ao fato de o grupo ter aproveitado a suspensão das cobranças para se reorganizar, se reestruturar e recompor seu capital de giro.

A mudança na Lei de Falências e Recuperação Judicial permite que a empresa possa encerrar seu processo de recuperação a partir da homologação do plano, sem a necessidade de aguardar o período de dois anos, como era anteriormente. Por isso, em virtude do sucesso obtido no plano pela Irmãos Soares, o advogado informa que pretende pedir a conclusão e extinção do processo de recuperação em breve.