Atualizada às 20h33O uso de protocolos para medicamentos em fases primárias da Covid-19, ou mesmo como prevenção, já está sendo adotado em Goiás nas cidades de Trindade e Ceres. Entidades médicas os descrevem como possíveis e dependentes da autonomia do médico e do paciente. A Associação Médica de Goiás (AMG) emitiu nota técnica nesta semana reforçando que há dois tipos de tratamento e que ambos podem ser orientados pelos médicos. A entidade acrescentou que estes devem ser levados ao conhecimento dos pacientes. Mesmo que ainda não se tenha a comprovação científica da eficácia dos remédios contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2), a AMG entende que o conhecimento da observação clínica, deve ser levado em consideração.A entidade não recomenda, na nota técnica, nenhum dos dois tipos de tratamentos que vêm sendo utilizados. Reforça apenas a existência de ambos, em que um, descrito como hospitalar, não utiliza remédios específicos para combater o vírus, mas apenas os sintomas, com a ideia de que o paciente se fortaleça até o corpo se imunizar. A outra opção aposta em medicamentos utilizados para outras doenças e cujos testes não conferem resultados significativos para a capacidade de destruir o coronavírus, mas que a observação dos pacientes demonstraria a cura da maior parte deles. Neste caso, os médicos optantes acreditam que os remédios sejam capazes de reduzir o impacto da doença, ou seja, menos pacientes ficariam graves, o que amenizaria a demanda por leitos hospitalares. Por outro lado, a adoção de protocolos dos medicamentos por prefeituras ou sendo difundidos por redes sociais, para o farmacologista Daniel Jesus, diretor secretário do Conselho Regional de Farmácia (CRF) pode induzir o paciente a relaxar outras medidas, como o distanciamento social e o uso de máscaras. Jesus afirma ser a favor do tratamento convencional, no qual os medicamentos são usados para os sintomas. </CW><CW-26>“O vírus se comporta de maneira diferente para cada pessoa e os medicamentos que têm sido receitados, como antibióticos, anticoagulantes, também varia para cada um. Não podemos incentivar a automedicação. Mas se é uma prescrição médica, sendo acompanhado, tudo bem”, diz. O farmacologista argumenta que a adoção dos protocolos pelas prefeituras deve ser feita com cuidado, pois muitas vezes ocorrem apenas para justificar o relaxamento de outras medidas, como do isolamento social. O médico Waldemar Naves, diretor da AMG, esclarece que a nota técnica da entidade reforça a necessidade da autonomia do médico e do paciente. “Hoje só temos três coisas que é consenso quanto a Covid-19: o uso de máscara, a higienização das mãos e o distanciamento social. Dito isso, todos os demais ainda são empíricos.”InformaçãoNeste sentido, Naves entende que os médicos não podem ser omissos aos pacientes, ou seja, devem relatar a existência dos dois métodos de tratamento, avaliar junto a eles, a partir da condição de cada um, qual deve ser a melhor estratégia e acompanhar. “A nota diz também que o médico deve aliar o verbo com a ação. Aquilo que ele defende deve ser dado a todos os seus pacientes, aos seus familiares e a ele mesmo. Não dá para dizer que é contra o medicamento, mas quando tiver a doença tomar”, diz. Ao mesmo tempo, caberia ao poder público ofertar aos médicos as duas opções de tratamento, ou seja, ter os medicamentos à disposição e atuar para a ampliação de leitos hospitalares.Secretário de Saúde de Ceres, Júnior Fleury, conta que o “kit covid” só é ofertado para a população que tem a recomendação dos médicos. “Desde o início da pandemia temos este protocolo para os casos confirmados, com a autorização médica. Na semana passada ampliamos para os pacientes com sintomas, mesmo antes do resultado do exame para Covid”, diz. Ele reforça que o kit não é único, e depende de cada paciente. Assim mesmo, Fleury confirma que muitas pessoas têm pedido o kit nas unidades de saúde, sem ter sintomas, ou mesmo cobrando dos médicos. “Aí entra o poder do médico de explicar que aquele caso não tem necessidade. Fizemos um trabalho de orientação para evitar que as pessoas comprem nas farmácias sem necessidade.” Secretarias confirmam autonomia aos médicosA Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia afirmam que os médicos têm autonomia para definir o tratamento para a Covid-19, o que é o ato médico, preconizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Ambas informam que não podem adotar protocolos com uso de medicamentos que não possuem evidências científicas robustas ou cuja eficácia em seres humanos não seja validada cientificamente. “Mas entende que o médico não está proibido de receitá-los, conforme avaliação clínica baseada em capacitação e princípios éticos e deontológicos”, diz a SES.A secretaria estadual reforça que se preocupa “com a forma como estão sendo distribuídos tais medicamentos, pois entre eles se incluem antibióticos que, no médio e longo prazo, podem produzir efeitos críticos no tratamento de outras doenças, como a resistência do organismo e a respectiva perda de eficácia do remédio. No caso da ivermectina, assim como os demais vermífugos, é preciso respeitar suas indicações e contraindicações, sobretudo na sua interação com outros medicamentos em uso.”Presidente do Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás (Simego), Franscine Leão relata que os médicos não denunciaram, até então, pressão para definir um tipo de tratamento específico e que é necessária a manutenção da autonomia médica. “Está ocorrendo muita politização da Covid-19 e isso só atrapalha em todos os sentidos.” Ela conta que não foi relatado qualquer desgaste, tanto do poder público como de pacientes, para a definição de tratamentos, mas que isso tem ocorrido na fase de diagnóstico ou mesmo do atestado de óbito. “Sofremos muitos desgastes até o momento na relação médico-paciente/familiares quando da suspeição, quando da entrada e paciente já em óbito. São situações difíceis e que após a pandemia se tornaram corriqueiras. As pessoas estão muito violentas. Têm alguns advogados e blogueiros incitando a violência contra os profissionais de saúde.”-Imagem (1.2081011)