Atualizada às 22h09

As orientações do governo federal para uso de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina no tratamento de pacientes com sintomas leves do novo coronavírus ainda não estão sendo aplicadas na rede pública de Saúde de Goiás. Falta de parte dos medicamentos, necessidade de mudança em protocolos de testagem e fluxo de pacientes são alguns dos motivos. Apesar das novas orientações, estudos recentes e entidades da área de Saúde não recomendam o uso dessas substâncias no tratamento de rotina de Covid-19 por falta de indícios de que são eficazes, além do risco de efeitos colaterais graves.

Até o momento, a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) só recebeu em seu estoque, do Ministério da Saúde (MS), caixas de cloroquina, não de hidroxicloroquina ou azitromicina. A remessa do medicamento chegou para ser usada seguindo o protocolo inicial do MS, em pacientes com casos agravados do vírus.

“A gente espera que eles tenham algum posicionamento sobre como vai ser a entrada desses medicamentos para a secretaria estadual e como a secretaria libera esses medicamentos para os municípios. Até agora só saiu a nota (do MS) e não tenho como te falar de estoque. O que a gente tem em estoque é cloroquina, daquela primeira remessa do Ministério para os pacientes graves”, explica o superintendente de Atenção Integral à Saúde da SES-GO, Sandro Rodrigues.

Outro desafio para seguir a orientação do governo federal é que pacientes com sintomas leves de Covid-19 são tratados na atenção primária à Saúde ou pronto-socorro, sob maior responsabilidade das secretarias municipais.

De acordo com as orientações do MS, para usar a cloroquina, o paciente deve ter teste positivo para coronavírus. No entanto, neste momento, os testes só são feitos em pacientes com estado de saúde mais agravado. Por isso, aplicar a medicação em pacientes com sintomas leves pode exigir uma mudança no protocolo de testagem, ampliando os perfis que passam pelo exame. A reportagem apurou que atualmente o Estado não possui insumos suficientes para aumentar em grande escala sua capacidade de testagem.

“Os testes rápidos, a princípio, têm disponível para repassar”, adianta Sandro Rodrigues. No entanto, a eficácia dos testes rápidos é menor do que os testes feitos em laboratório, com maior probabilidade de dar resultado falso negativo.

Além da questão da testagem, o tratamento com cloroquina orientado pelo governo federal, exige uma série de exames nos pacientes com sintomas leves, como anamnese, físico e eletrocardiogramas. Esse último por conta dos efeitos colaterais do medicamento.

Análise

Uma equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia está realizando estudos para definir se vai fazer o uso de cloroquina em pacientes com sintomas leves e como fazer isso. Segundo o superintendente de Gestão de Redes de Atenção à Saúde, Silvio José de Queiroz, é preciso ter certeza sobre os riscos do medicamento.

“Estudos científicos mostram que o risco é muito grande se usado na fase inicial. Pode ser que a secretaria libere e pode ser que não. Tem que considerar os malefícios do medicamento. O que não queremos é começar a deteriorar cedo a função renal e hepática do paciente. Não podemos colocá-lo em risco”, avalia.

O superintendente conta que informações equivocadas sobre a cloroquina e supostos efeitos de cura no combate ao Covid-19 acabam fazendo com que os pacientes queira fazer a administração do remédio, independente do parecer médico. “Há uma discussão no Brasil sobre o uso da cloroquina, inclusive incentivando. Isso gera, às vezes, um desconforto para o profissional que faz o atendimento. Muitos pacientes exigem o seu uso, sem saber que tem que ter critérios estabelecidos, tem que elaborar protocolos”, revela.

Estudo

Uma equipe técnica da SMS de Aparecida de Goiânia também está fazendo um estudo para criar um protocolo sobre o uso de cloroquina em pacientes com sintomas leves.

Já a SMS de Anápolis informou que aguarda novos protocolos e orientações do MS sobre uso de cloroquina e que vai segui-los. No entanto, informou que não tem insumos suficientes para testar casos leves, por ser inviável economicamente, mas tem estrutura para realizar exames de acompanhamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus que estejam tomando cloroquina.

 

CRF-GO se posiciona contra uso em casos leves

O Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO) se posicionou contrário ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes de Covid-19 com sintomas leves. A entidade avalia que o efeito colateral do medicamento pode ter mais riscos do que o próprio vírus, nos casos sem gravidade. 

“O Ministério da Saúde se exime de responsabilidade e joga nas costas do paciente a escolha de usar um medicamento experimental”, criticou o diretor secretário do CRF-GO, Daniel Jesus, em nota da entidade. 
A posição do conselho segue a mesma de outras entidades. Na última segunda-feira, a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) publicou um parecer científico que conclui ser precoce a recomendação de uso de cloroquina, tanto por falta de evidências de que é benéfica, como por causa de seus efeitos colaterais. 

No mesmo dia, um parecer conjunto da Associação de Medicina Intensivista Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia, Pneumologia e Tisiologia recomenda não utilizar cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento de rotina de Covid-19 por conta do nível de evidência baixo de sua eficácia. 

Reportagem do POPULAR já mostrou que médicos de hospitais de campanha localizados em Goiás chegam a usar cloroquina apenas em pacientes graves, de forma experimental. No Hospital Aniss Rassi, chegou-se a administrar a substância para casos leves, mas o procedimento foi encerrado por falta de evidências de que realmente ajuda no tratamento.