O uso da ivermectina - medicamento usado comumente para combater parasitas - no tratamento do novo coronavírus (Sars-CoV-2) tem ganhado cada vez mais popularidade e dividido médicos que são contra e a favor do uso do medicamento. De um lado, um grupo defende que, mesmo sem comprovação científica da eficácia, o medicamento tem ajudado, na prática, a evitar quadros graves da doença quando usado no tratamento precoce de pacientes. Do outro, um grupo acredita que o uso da medicação de forma indiscriminada, principalmente em tratamentos profiláticos, vai contra os princípios da medicina, que baseia os procedimentos em evidências científicas sólidas.Em Goiânia, o cirurgião geral e clínico Joaquim Inácio de Melo Júnior, segue internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ele faz parte de um grupo de médicos goianos que defende o uso da medicação e que chegou a distribuí-la no início do mês em Aparecida de Goiânia. Na última semana, Joaquim deu uma entrevista à TV Serra Dourada onde afirmava que estava infectado com a Covid-19, mas estava bem e se tratando com a ivermectina. No dia 10 de julho ele foi internado. Amigos e parentes do cirurgião fizeram campanha nas redes sociais para doação de plasma para o médico. A unidade de saúde onde ele está hospitalizado disse que não pode informar detalhes do estado de saúde do paciente. Entretanto, O POPULAR obteve informações de que estado de Joaquim continua delicado.O cirurgião pediátrico e deputado federal Zacharias Calil, um dos defensores do uso de ivermectina no tratamento precoce do novo coronavírus, lamentou o estado de saúde do colega de profissão. “Fiquei sabendo pelas redes sociais. Sinto muito que ele esteja doente assim”, afirma. Sobre o fato da falta de sucesso da ivermectina no tratamento precoce de Joaquim, Calil afirma que o medicamento não é milagroso. “Infelizmente, não são todos os casos que vão evoluir bem”, pondera.Calil explica que não é a favor do tratamento profilático como alguns médicos, como Joaquim Inácio de Melo Júnior, estão recomendando. “É preciso prescrição médica. É necessário chegar a unidade de saúde e caso existam sintomas, fazer exames. Quanto mais cedo o tratamento começar, menor o risco do estado de saúde do paciente ficar grave”, diz.Já os médicos que são contra o uso do medicamento, esclarecem que cerca de 80% das pessoas que se infectam com a Covid-19 se curam sem complicações. “É muito leviano falar que o paciente tratado com a ivermectina ficou bem por conta dela, quando a porcentagem de casos leves é tão alta assim”, explica o médico infectologista chefe da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Alexandre Barbosa. “Ainda que a ivermectina diminuísse a carga viral, ela não seria positiva para tratar casos graves, pois ela não conseguiria tratar a resposta inflamatória do corpo causada pelo vírus”, ressalta a médica infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Marianna Tassara.PolíticaCom a grande adesão da população ao uso da ivermectina, tanto os médicos que são contra o uso do medicamento quanto os que são a favor acreditam que a política tem interferido no posicionamento de colegas de profissão. O POPULAR tentou contato com outros médicos que são a favor do uso da ivermectina, mas apenas Calil aceitou conversar com a reportagem. O médico admitiu que mesmo sem comprovações científicas da eficácia, o medicamento tem sido visto como uma tentativa prática de combater uma doença com muitos vieses ainda desconhecidos. “Em uma guerra, quando o inimigo é grande, precisamos recuar. Foi o que fizemos com o isolamento social. Entretanto, quando começamos a ter alguns instrumentos de batalha precisamos começar a usá-los”, explica.Marianna acredita que o estímulo ao uso do medicamento tem motivação ligada a retomada das atividades econômicas. “As pessoas vão se sentir mais seguras a voltar a consumir, ir para as ruas e retomar as atividades de maneira indiscriminada. No fim, isso vai resultar em um sistema de saúde colapsado”, afirma a médica.Alexandre Barbosa diz que muito médicos estão recomendando o uso da ivermectina para conseguir publicidade e popularidade. “Alguns realmente acreditam na eficácia do medicamento, mas outros estão cientes da ineficiência e ainda sim o indicam pois sabem que grande parte da população está preocupada e em busca de uma solução simples para a doença”, diz.Barbosa afirma ainda que fazer prescrições médicas sem se basear em evidências científicas é um crime contra a ética médica. “Eu costumo chamar isso que estamos vivendo de um show de horrores. É mais grave ainda quando médicos que tem credibilidade junto a população indicam a medicação. O único caminho efetivo para tratar a doença é por meio da ciência e, por enquanto, ela ainda não tem respostas palpáveis sobre o que pode realmente ser eficaz”, finaliza o médico infectologista. Que remédio é esse?Entenda como a ivermectina atua no organismo e confira os riscos que excesso do medicamento pode trazer à saúdeO que é a ivermectina? É um fármaco antiparasitário aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serve para o combate, principalmente, de piolhos, sarna, vermes, etc. Até o momento, ele não tem nenhuma aprovação sanitária para ser usado como antiviral. Como ela atua no organismo?Contra parasitas, ela age paralisando os nervos deles, que acabam morrendo por não conseguirem mais se alimentar e se movimentar. Como ela age contra o coronavírus?Contra o Sars-CoV-2, estudos in vitro mostraram que ela diminuiu o material genético dentro do vírus em 48 horas. Porém, ainda não foram feitos ensaios clínicos para testar a eficácia do procedimento em humanos e a dose usada do medicamento é muito alta e poderia causar prejuízos à saúde humana.Quais podem ser os efeitos colaterais do uso do medicamento?Como antiparasitário, por conta da baixa dosagem, os efeitos colaterais são irrisórios. Porém, o uso indiscriminado da ivermectina pode causa efeitos dermatológicos, como vermelhidão na pele, neurológicos, como fraqueza muscular, além de afetar pessoas com problemas cardíacos, asma, e diabetes.Atualmente, o Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRF-GO) não recomenda a automedicação e nem o uso de medicamentos para o tratamento de doenças sem uma eficácia comprovada cientificamente. Por enquanto, a recomendação do CRF-GO continua sendo o isolamento social, uso de máscaras e aumento da higienização.Fonte: Flaubertt Santana, farmacêutico especialista em toxicologia e conselheiro do Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRF-GO)