As universidades goianas têm participado ativamente do processo de combate ao novo coronavírus (SARS-CoV-2), responsável pela Covid-19. Instituições muitas vezes criticadas por, aparentemente, estarem desconexas com as necessidades da sociedade, a pandemia que assola o mundo tem sido o fator que mostra a importância do conhecimento científico para a vida humana, de acordo com os professores. Desde que o primeiro caso foi confirmado em Goiás, no dia 12 de março, mais de uma centena de projetos e ações estão sendo realizados pelas instituições de ensino superior, desde a produção de equipamentos e suprimentos, tratamento de pacientes e mesmo campanhas sociais.

Na maior parte dos casos, as iniciativas são realizadas mesmo sem financiamento, contando com a contribuição pessoal dos professores e alunos que não estão apenas nas áreas de saúde ou biológicas. Estes têm apoiado o tratamento de pacientes e realizado estudos científicos, como aqueles ligados a área econômica. Mas há ainda pessoas dos cursos de química, por exemplo, na produção de soluções desinfetantes, álcool em gel ou etanol 70%. Da engenharia, docentes e discentes ajudam na manutenção de respiradores mecânicos e na fabricação de máscaras cirúrgicas e equipamentos de proteção, no que conta com apoio de designers. Professores de artes ou moda atuam para produzir máscaras caseiras.

Profissionais de artes e comunicação que atuam nas universidades também auxiliam na tentativa de informar e produzir conteúdo como modo de reforçar a necessidade do isolamento social, assim como entreter as pessoas em casa. Da ciência da computação, geografia e estatística surgiram iniciativas de produzir sites com os dados atualizados sobre a pandemia, mostrando a evolução dos casos e servindo para mostrar ao público a razão das tomadas de decisões, como explica o professor Esdras Bispo Júnior, da Universidade Federal de Jataí (UFJ) e que iniciou o projeto De Olho No Corona. O site reúne os dados da pandemia nas cidades de Jataí, Rio Verde e Mineiros.

“O nosso momento exige uma reformulação de como a gente vai enxergar o mundo de agora em diante. A universidade sempre cumpriu uma função importantíssima na sociedade, mas agora ainda mais. Creio que o aprendizado será que a agenda universitária, de hoje em diante, estará bem mais sintonizada com as demandas da sociedade. Priorizar os esforços em relação à pandemia é um compromisso ético da universidade com a sociedade”, afirma Júnior. Ele conta que o projeto surgiu uma semana após o decreto municipal em Jataí, quando professores do curso de Ciências da Computação da UFJ, por iniciativa própria, perceberam a necessidade de contribuir no suporte aos profissionais de saúde.

O site funciona sem qualquer financiamento, em que professores e voluntários dedicam suas horas livres para a atualização dos dados e o acompanhamento dos mesmos. “Se for possível informar com qualidade e permitir uma melhor tomada de decisão, tanto de cidadãos quanto de gestores, a missão do observatório foi cumprida”, diz Júnior. Para ele, as decisões afetam a vida de toda a sociedade e por isso é necessário que as informações sejam claras e de fácil acesso a todos. Há iniciativas semelhantes em outras instituições, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), com o projeto Covid-Goiás em que divulga os dados pandemia de todo o Estado.

Por outro lado, as universidades também vêm atuando a partir das demandas de outras áreas e não apenas a partir de iniciativas próprias. A necessidade de conseguir um maior número de respiradores mecânicos chegou ao professor Rodrigo Pinto Lemos, da Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação (EMC) da UFG, como um desafio para consertar equipamentos em desuso das unidades hospitalares goianas. Já são 70 respiradores que aguardam análise e trabalho mecânico na tentativa de recuperá-los. “O objetivo é ver se consegue recuperar por combinação ou manutenção, pois cada um que a gente conseguir é uma vida que vai ser salva”, afirma.

Lemos reforça que os pacientes em casos graves necessitam de leitos em unidades de terapia intensiva (UTI) equipados com os respiradores. O serviço será feito de forma voluntária e com baixo custo, mas na tentativa de conseguir ser rápido para levar as máquinas de volta às unidades de saúde. “Temos 70, se salvar 10 já são 10 vidas, se for 1 já é uma vida e uma vida não tem preço. É um momento em que temos de doar nosso tempo para colaborar, é a união de várias pessoas da área técnica, de saúde e entidades que pode ajudar.”

 

Artes também busca soluções

A professora da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Rafaela Pires, se preocupou com a situação da pandemia do novo coronavírus antes mesmo da suspensão das aulas na instituição, pois recebia notícias de amigos que moram em outros países. 

“Comecei a ler reportagens jornalísticas e trabalhos científicos que tratassem da Covid-19 como um interesse pessoal para compreender o máximo possível sobre o vírus. Comecei a acompanhar informações nos grupos internacionais de desenvolvimento de equipamentos e projetos ‘open-source’ (ligados à minha pesquisa)”, conta. Nesta busca, ela soube sobre necessidades de equipamentos que surgiram em outras localidades. 

A ideia passou a ser de realizar um vídeo ensinando as pessoas a fazerem máscaras de proteção caseiras, que passou a ser mais indicada nas últimas semanas. Ela chegou a receber a sugestão de um amigo médico que faz doutorado na Inglaterra para realizar um protótipo de uma máscara com o material do saquinho do aspirador de pó, o que poderia ter um produto com índice de retenção de partículas de 95%. “Mas não consegui nem encontrar o material, pois o comércio já estava todo fechado. Além disso, se fosse para apresentar uma ideia fácil de a população desenvolver em um movimento solidário realmente teria que ser um material de fácil acesso para o momento.”
 
Desde que o vídeo foi publicado e divulgado, Rafaela ouviu respostas positivas “no sentido de tentar dar explicações mais plausíveis no porquê do uso de materiais aplicados a um item do cotidiano, ao invés de simplesmente só mostrar um passo-a-passo”. Para ela, “isso mostra que a ciência é feita e está intrinsecamente ligada ao nosso cotidiano, por isso é importante que a população tome consciência, neste momento, da importância da valorização da ciência no País e na vida delas”. Sobre auxiliar no combate a uma pandemia mesmo sem ser da área de saúde, a professora lembra que “não é porque o efeito da arte não apresenta uma resposta imediata, não signifique que ela não tenha uma função nítida e de extrema importância neste período da pandemia.”