Mesmo sem data para o retorno das aulas da graduação na Universidade Federal de Goiás (UFG), um grupo de trabalho estuda as possibilidades e previsões para quando este momento chegar. O reitor Edward Madureira diz que não é o momento de definir quando os estudos serão retomados, mas como. “Certamente a realidade no retorno será bem diferente do que estávamos acostumados. Teremos de nos adaptar a uma nova rotina, sem deixar de oferecer um ensino de qualidade”, diz.

A UFG está entre as 63 universidades federais do País que não aderiram às aulas não presenciais, conforme recomendação do próprio Ministério da Educação. Madureira diz que diversos motivos contribuíram para isso. “Além de muitos de nossos alunos não terem acesso à internet de qualidade, que pudesse dar suporte para o acompanhamento das aulas em casa, precisaríamos ter outro tipo de infraestrutura de tecnologia da informação”, explica.

O reitor da UFG reforça que os conteúdos para as aulas da graduação também precisam de adaptação para ser colocados em formato digital, para aulas a distância. “Precisamos da adaptação do professor ao novo formato, dos conteúdos com a tecnologia, da infraestrutura. Tudo isso precisa ser analisado, passar pelo conselho universitário, ser aprovado e testado. Nossa preocupação é que, quando for o momento de voltar, tenhamos capacidade de continuar com qualidade”, diz.

Para Edward Madureira, quando houver a possibilidade de retorno, certamente terão de ser adotadas medidas para convivência com a nova realidade. “Ainda não posso dizer com certeza, porque tudo é novo, mas posso dizer que certamente teremos um novo formado nas salas. Vemos que uma fórmula é combinar menor número de alunos em sala e rodízio. Experiências de outros países que estão retomando as aulas agora nos mostram isso.”

Aluna do curso de ciências contábeis da UFG, Ludmila Borges, de 18 anos, está no terceiro período e também está sem aula. Ela sabe que terá prejuízo no ano letivo, mas entende a situação. “Eu não sei se teria produtividade sem a aula presencial. Muitos colegas dizem a mesma coisa. Acredito que será uma nova realidade e que teremos de nos adaptar juntos. Mas concordo que seja pensado para atender a todos os alunos. Não são todos que têm wi-fi em casa.”

Pesquisa

O reitor diz que o conselho deverá avaliar o início desta experiência para saber como este processo deverá ocorrer. “Fizemos um questionário com oito mil alunos para nos planejarmos e percebemos que ainda existe muita dificuldade de acesso. Então, talvez, outra opção seria receber em sala o aluno que não terá condição de acessar o conteúdo de casa e quem tem este suporte, continuar acompanhando a maior parte (do conteúdo) de casa. Mas tudo isso ainda é inicial. Temos de aguardar.”

O reitor continua dizendo que “o problema está diagnosticado e que agora é hora de encontrar a solução.” Madureira ressalta que sabe que muitos alunos terão prejuízos neste período. “Infelizmente uma pandemia com esta magnitude não passa sem deixar prejuízo. Especialmente aquele aluno que já contava com a conclusão do seu curso para entrar no mercado de trabalho, iniciar sua vida profissional e ajudar nas despesas de casa. Mas infelizmente não tem como ser diferente”, diz.

Madureira afirma que um dos desafios será oferecer isonomia a todos os alunos neste momento sem comprometer a qualidade do ensino. “Sabemos que isso causa inquietação, que os alunos estão ansiosos pelo retorno, mas temos de atender a todos. Sabemos que de cada quatro alunos, três são de baixa renda. Dentre estes três, um é de baixíssima renda. Então não podemos apenas tomar uma decisão sem contemplar a todos, em todos os lugares”, ressalta.

 

Aulas do ensino superior estão suspensas até junho

Com a notícia de que o Ministério da Educação (MEC) prorrogou a suspensão das aulas presenciais por mais 30 dias nas instituições de ensino superior e no sistema federal de ensino, a Universidade Federal de Goiás (UFG) continuará sem as atividades, já que não adotou sistema de aulas on-line até o momento. Na instituição, apenas as aulas dos cursos de regime a distância continuam ocorrendo, assim como o serviço administrativo e de enfrentamento à Covid-19, de maneira remota. Os cursos dos alunos das áreas de saúde, que estavam em conclusão, também seguem. Nesta sexta-feira (15) o conselho universitário deverá analisar a possibilidade de início das aulas a distância para os cursos de pós-graduação.

A prorrogação foi anunciada esta semana pelo MEC e reforça que é mais uma medida para prevenir o contágio pelo novo coronavírus, seguindo orientação do Ministério da Saúde. Com o novo decreto, a suspensão passa a ser de 60 dias, iniciados em 18 de março e fim em 16 de junho. A orientação do MEC é para que, no caso da suspensão, sem substituição das aulas, ocorra o cumprimento dos dias letivos e das horas-aula determinados pela legislação em todos os cursos.

Ainda de acordo com o Ministério da Educação, cabe a direção de cada instituição definir quais disciplinas serão ofertadas na modalidade a distância e fornecer os equipamentos que permitam aos alunos acompanhar as atividades. O portal do MEC informa que 59 das 69 universidades estão com atividades suspensas, o que envolve 962.072 milhões de estudantes. O ministério ainda informou que, além das universidades, 32 dos 41 institutos federais estão com as atividades paralisadas. Os demais mantêm atividades a distância e poderão gozar da prorrogação definida pela pasta, que vai até junho.

A forma como as aulas serão repostas na UFG também terá de ser definida. O reitor diz que neste momento existe um grupo de trabalho tentando buscar meios de retomada das aulas com as dificuldades e especificidades do universo dos alunos. Entre estes pontos que devem ser levados em consideração está o acesso à internet. Pesquisa de 2018 do Comitê Gestor da Internet mostrou que três em cada dez brasileiros não têm acesso à rede. Nas classes A e B, o índice é de 92%. Nas D e E, fica em 48%.

A mesma pesquisa ainda mostra que 56% das pessoas acessam a internet apenas pelo celular. Neste caso, os pacotes são limitados aos dados contratados, o que restringe a possibilidade de tempo de visualização de vídeos por streaming. O reitor da UFG, Edward Madureira, diz que este é um ponto importante na análise do grupo de trabalho. “Tem cerca de um mês que este grupo já está trabalhando. Também vamos pensar, em um segundo momento, na retomada das aulas. Agora precisamos saber como este aluno terá acesso ao conteúdo no caso de irmos para as plataformas on-line”, destaca Madureira.

O Sindicato dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) critica a adesão às aulas on-line e divulgou nota na qual diz que a falta de equipamentos e internet de qualidade não é a realidade da maioria dos estudantes, especialmente nas instituições públicas. 
Presidente da Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andifes), João Salles afirma que a discussão é semelhante em todo o Brasil. Ele acrescenta que as comunidades acadêmicas compartilham as dificuldades, mas que cada instituição certamente terá de encontrar uma solução, visando às particularidades de cada local, a considerar região e tamanho, por exemplo.