Após a autorização do Conselho Federal de Medicina (CFM), a edição de uma portaria do Ministério da Saúde e a aprovação pelo Congresso Nacional de um projeto de lei que libera o uso da telemedicina durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil, a prática, que consiste no atendimento, monitoramento e consulta à distância, passou a ser amplamente usada em Goiás.

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Leonardo Mariano Reis, diz que a telemedicina ajudará a evitar a propagação da doença pelo Estado. “Contribuirá muito para diminuir a circulação de pacientes e portanto a transmissão do vírus. Porém, temos que fazer isso com responsabilidade. Tudo deve ser registrado”, enfatiza.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia está fazendo o uso da telemedicina para acompanhar os casos suspeitos e confirmados da doença em Goiânia. Uma das médicas da pasta, Marta Silva, explica que em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), a SMS tem feito o telemonitoramento do estado de saúde desses pacientes.

“Temos uma equipe multidisciplinar que liga para eles todos os dias e acompanha a evolução dos sintomas. Se eles tiverem qualquer agravo no estado de saúde, são encaminhados para um médico que realiza um teleatendimento e se ele achar necessário encaminha o paciente para uma unidade de saúde”, explica. Segundo ela, isso é benéfico pois dessa forma os pacientes nunca ficam desassistidos e caso precisem ir para uma unidade hospitalar, o local já estará preparado para recebê-lo.

Marta afirma que sem a telemedicina não seria possível fazer esse monitoramento tão amplo. “Não conseguiríamos ir em todas as casas todos os dias. Além disso, dessa maneira a saúde do profissional também é resguardada”. A SMS oferece ainda uma interconsulta para os médicos. “Ela funciona como um apoio e orientação de médico para médico sobre os casos. Assim, os médicos da linha de frente poderão discutir os quadros de saúde com pneumologistas, infectologistas e intensivistas.”

Porém, a médica ressalta que o trabalho da telemedicina só é eficiente se o distanciamento social for cumprido. “Já ligamos para fazer o monitoramento e as pessoas estavam em pit dogs e supermercados. Até mesmo os casos confirmados. É preciso levar a doença a sério e respeitar o isolamento”, alerta.

A central de telemedicina da SMS fica na Faculdade de Medicina da UFG funciona das 8h às 18h e conta com 18 estações de trabalho, sendo 15 multidisciplinares preenchidas por profissionais do município e três para pneumologistas, infectologistas e intensivistas, que são preenchidas por profissionais da UFG e voluntários. A equipe conta ainda com quatro médicos e um psicólogo.

O professor Alexandre Taleb, da Faculdade de Medicina da UFG, explica que a telemedicina é um modo diferente de cuidar dos pacientes. “Neste momento em que temos a orientação para o isolamento ela é uma alternativa muito interessante e viável. É claro que existem limitações que precisam ser respeitada. Porém, no momento podemos trabalhar muito bem com ela”

Taleb afirma que além da parceria com a SMS da capital, a UFG também está trabalhando em um projeto conjunto com o Estado nos mesmos moldes. “Vai funcionar como uma teletriagem, teleorientação e telemonitoramento. Se for necessário, também haverá um teleatendimento médico”, diz. O professor esclarece ainda que a UFG conta com dois endereços eletrônicos (tele.medicina.ufg.br e covid19.medicina.ufg.br) que os profissionais que desejam uma segunda opinião médica podem acessar.

Anápolis

Em Anápolis, o serviço de atendimento inicial à população já está disponível através do ‘ZAP do Coronavírus’. Com quase 100 profissionais da área atuando na iniciativa, que funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia, o serviço já realizou 2,2 mil atendimentos desde que foi inaugurado no dia 18 de março.

As instruções para o uso são simples: Se estiver com sintomas gripais, basta entrar pelo celular no portal http://www.anapolis.go.gov.br/portal/zapdaprefeitura/ e escolher o grupo de informações sobre o coronavírus. Ao entrar, um profissional da saúde iniciará uma conversa de modo privado. Caso a pessoa tenha sintomas mais graves, como cansaço e falta de ar, e precise de uma assistência mais dedicada, um médico poderá realizar atendimento por meio de vídeo chamada, utilizando a ferramenta do próprio WhatsApp.

Através desse primeiro atendimento, o paciente é orientado ou a ficar em casa ou a ir para uma das cinco Unidades de Referência em Coronavírus (da Vila União, do Recanto do Sol, do Bairro São José e do Bairro de Lourdes e a do Parque Iracema) e a UPA Pediátrica. Há ainda a possibilidade da pessoa ser atendida a domicílio por um médico e enfermeiro/técnico enfermagem. Até o fim de março, foram 44 atendimentos domiciliares.

Unimed fez mais de 800 consultas de casos suspeitos

Mais de 800 pessoas com suspeita de estarem infectadas pelo novo coronavírus (Covid-19) ou com dúvidas sobre a doença já foram atendidas pelo aplicativo de telemedicina da Unimed Goiânia “Cliente Unimed Goiânia”, disponível para IOS e Android.

Pela plataforma o beneficiário encontra algumas opções de suporte relacionadas à doença como, por exemplo, atendimento via WhatsApp, consultório virtual e dicas e orientações sobre a Covid-19. “É muito importante que exista esse meio de atendimento, pois é uma forma das pessoas se consultarem e tirarem dúvidas sem sair de casa, garantindo assim o isolamento social, tão necessário para que não tenhamos uma explosão da Covid-19 e uma sobrecarga no sistema de saúde”, explica o presidente da Unimed Goiânia, Sérgio Baiocchi Carneiro.

No ícone ‘Covid-19’ o paciente responderá algumas perguntas essenciais: qual estado de saúde, quais os sintomas apresentados, se viajou nos últimos 14 dias ou se teve contato com alguém que tenha testado positivo. Dependendo da resposta, ele será orientado a ficar em isolamento domiciliar ou procurar auxílio médico.

No consultório virtual, os beneficiários terão um teleatendimento e de acordo com o estado de saúde receberão instruções médicas do que deve ser feito. No aplicativo ainda existe um espaço reservado com dicas e esclarecimentos sobre a Covid-19.
A estudante de nutrição Fabiana Ribeiro Pires, de 36 anos, utilizou o serviço na última quinta-feira (2) depois ter sintomas gripais. “Baixei o aplicativo e foi bem rápido. Uma enfermeira me atendeu primeiro e depois me encaminhou para uma médica que me fez muitas perguntas e depois me passou medicação e recomendou que eu ficasse em isolamento domiciliar”, relata.

Fabiana diz que achou a qualidade do serviço boa e se sentiu mais segura de não ter que sair de casa. “Ir para a rua nessa hora poderia fazer com que eu me infectasse”, finaliza a estudante. 

Teleconsulta oferece contato direto com infectologistas

Uma empresa goiana já está oferecendo o serviço de teleatendimento médico direto com infectologistas. A ConectMed, que já oferecia serviços de interconsulta para médicos há cerca de um ano, cobra R$ 60 pela triagem e consulta médica de pacientes que estejam com suspeita de novo coronavírus.

Um dos sócios da empresa, Frederico Moraes, explica que tanto o valor quanto a oferta do serviço foram pensados para contribuir positivamente em um momento de crise. “Contratamos cinco infectologistas que irão atender essas pessoas da melhor maneira possível”, pontua.

O atendimento funciona em duas etapas: primeiro é preciso passar por uma triagem eletrônica onde o paciente responde algumas perguntas. “Dividimos esses pacientes entre os que têm sintomas leves, os que têm suspeita da doença e os que têm suspeita e apresentam quadro clínico de agravamento”, afirma Mores. O segundo passo é o agendamento do teleatendimento. “Daí, eles vão para o atendimento online com o médico”, diz Moraes.

Segundo ele, caso o médico veja indicação, o paciente receberá um encaminhamento para fazer o exame para o novo coronavírus e caso o resultado dê positivo, ele será acompanhado pelos médicos que trabalham para a empresa. “Se notarmos que o quadro está se agravando, ele receberá imediatamente um encaminhamento para uma unidade de saúde”, finaliza.

Hospitais do Estado aderiram à modalidade

Os hospitais estaduais também já estão utilizando a modalidade. No O Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), gerido pelo Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (Idetech), a teleconsulta e a teleorientação têm sido usadas para cuidar especialmente dos portadores de doenças crônicas. “Como o ambulatório está fechado, os médicos estão entrando em contato por telefone com os pacientes e acompanhado o seguimento da doença. Um dia antes do atendimento o hospital liga confirmando a consulta”, explica o diretor técnico da unidade, Durval Pedroso.

Durante as consultas, os pacientes podem enviar fotos dos exames para os médicos por WhatsApp e receber receitas que não precisam de controle sanitário . “Caso seja necessário pegar uma receita que precisa de controle sanitário, nós agendamos um horário para um parente vir buscar. Se o profissional entender que é necessário uma avaliação clínica de urgência, ele orienta o paciente a procurar uma unidade de saúde. Se houver a necessidade de uma avaliação clínica local, é combinado um horário para ele vir ao hospital para receber o atendimento”, esclarece o diretor técnico.

Os profissionais que estão atendendo nesta modalidade são os médicos endocrinologistas (atendimento ao paciente diabético), neurologistas, reumatologistas, pneumologistas, nefrologistas e clínica medica. Os programas específicos, como o Transexualizador (TX) e o Núcleo de Orientação Interdisciplinar em Sexualidade (Nois), também estão nessa modalidade e mantêm atendimento aos pacientes já em acompanhamento. “Os recém transplantados também estão no grupo que vai receber esse atendimento e as pessoas que estão com o quadro de pós operatório e precisam de acompanhamento clínico ainda serão atendidas na nossa unidade com agendamento prévio”, reforça.

Como as visitações no local foram suspensas, os pacientes internados nos leitos das Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) e enfermarias também estão usando da tecnologia para se comunicar com as famílias. “Na UTI, os que estão acordados são acompanhados pela equipe de assistência social e podem fazer vídeo chamadas com a família. Para os que estão desacordados, a equipe médica está passando diariamente o boletim com o estado de saúde. Na enfermaria, os pacientes têm a liberdade de falar com os seus familiares”, explica Pedrosa. 

No Hospital de Campanha (Hcamp), criado para tratar exclusivamente de pacientes com a Covid-19, a telemedicina também será uma grande aliada na hora de tratar os pacientes. Conforme o diretor-geral da unidade de saúde, Guillermo Sócrates, disse ao POPULAR na última sexta-feira (27) que essa modalidade será muito usada para o tratamento dos pacientes quando for necessário a consulta de outros especialistas como, por exemplo, cardiologista.

Na prática, segundo Sócrates, o contato seria de médico para médico e feito através das estruturas modulares colocadas no estacionamento da unidade de saúde. Nesse local, o médico especialista teria acesso ao prontuário e exames do paciente e poderia discutir o quadro de saúde e estratégias de tratamento. Dessa forma, os médicos especialistas não precisam entrar na unidade de saúde e correr o risco de serem infectados pelo vírus.

Segurança dos dados preocupa

A segurança dos dados compartilhados via telemedicina é algo que ainda é debatido e preocupa os especialistas da área de tecnologia. Até o momento, a regulamentação da prática é válida apenas para esse enfrentar o período de pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Depois, caberá ao Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelecer as normas e critérios éticos para esse exercício profissional. 

O especialista na área de Tecnologia da Informação, com mais de 12 anos de experiência no mercado, CEO e fundador da Integratto Tecnologia, empresa que presta serviço de segurança da informação, e membro do projeto LGPD Plan&Run, que pretende ofertar workshops práticos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para instituições da área médica, Dominique Fernandes, explica que o sigilo das informações depende totalmente das ferramentas que o hospital ou médico utiliza. “Outro ponto que conta muito é a ética dos profissionais de não divulgar, nem espalhar as informações dos pacientes”, diz.

Fernandes afirma que no Brasil não existe nenhuma regulamentação sobre a segurança desses dados, mas que uma boa maneira de garantir que eles não serão expostos é usar bons softwares. “A gente espera uma mudança quando a LGPD passar a vigorar. Até lá, a ferramenta mais segura é um software corporativo que permita que as informações sejam auditadas”, esclarece.

Por isso, o especialista não acredita que o WhatsApp seja a plataforma mais indicada. “Nesse aplicativo nunca é possível ter total certeza de quem está do outro lado e onde as suas informações pessoas vão parar. O mais indicado é que exista uma plataforma que você acesse com uma senha ou assinatura digital e que tudo sejam acessados apenas por lá”, explica.