Desde que o governo estadual determinou normas para o funcionamento ou o fechamento de locais que reúnem aglomerações, empresas, escolas, igrejas e outros estabelecimentos estão utilizando ferramentas que já faziam parte de suas realidades, mas que agora passaram a ser protagonistas. Coordenador do MBA em Gestão e Transformação Digital, Marsal Melo acredita que as relações de trabalho, estudo e convivência serão rediscutidas a partir das restrições de convívio impostas pelas regras para minimizar situações de contágio do novo coronavírus (Covid-19). “O mundo nunca mais será o mesmo.”

Diretor de uma escola de inglês no Setor Nova Suíça, em Goiânia, Alcides Júnior conta que já utilizava aplicativos de conversas e de vídeos pelo celular para repor aulas e manter contato com os alunos. Mas desde o ano passado passou também a realizar videoaulas usando uma plataforma específica para isso. Ele tem hoje quatro contas que suportam até cem participantes em cada uma. “Desde que a pandemia foi tomando proporção maior, pensei que seria uma opção para que os alunos não ficassem prejudicados com conteúdo”, explica Júnior.

Ele acrescenta que realizou este tipo de aula com alunos de empresas e que a experiência foi boa. “Desde que houve a recomendação de suspensão das aulas, definimos este modelo, que não é novo, mas que passou a ser o mais utilizado”, detalha. O diretor explica que, para participar, o aluno baixa o aplicativo em qualquer aparelho e, na hora marcada para a aula recebe um link para entrar na “sala”. Todos os alunos que participam podem interagir e conversar tanto com o professor quanto com os colegas. “Por ali, compartilhamos fotos, textos, mensagens, gravamos aulas na sala, com quadro, da forma que for mais interessante para o rendimento da aula”, detalha.

Júnior diz que esta é uma realidade e que acredita que, a partir de agora, será ampliada. “Nada substitui o contato humano, as relações pessoais, mas entendo que as pessoas terão outro olhar para estas ferramentas tecnológicas a partir de agora. Acredito que vão tomar mais espaço nas nossas vidas”, diz.

O coordenador pedagógico de um colégio particular no Setor Jaó concorda com Júnior. Natan Marques diz que as duas plataformas que são utilizadas com alunos do ensino fundamental e médio passaram a ser o principal meio de contato com os estudantes. “Já utilizamos a ferramenta e agora estamos otimizando.”

Marques explica que os professores gravam os vídeos dos conteúdos de casa e publicam na plataforma. Além disso, enviam questionários e listas de atividades. Os alunos precisam responder, encaminhar respostas e relatórios. Com base nessas respostas, os professores podem direcionar os estudos. “Para os alunos do ensino médio, a intensidade é maior. Para os estudantes da terceira série do ensino médio, temos uma plataforma específica para que eles tenham o acompanhamento necessário para esta época dos estudos”, diz o coordenador.

Natan Marques não acredita em dificuldade nesta relação. “Não temos como fugir da tecnologia, estes alunos nasceram na era digital. Se fugíssemos disso seríamos anacrônicos. Mas tudo precisa de uma certa disciplina e esta será a oportunidade para que estes alunos entendam essa realidade. É importante deixar claro que não são férias, mas momento de treinar autodisciplina e autogestão. Ele mesmo será responsável pela sua gestão de tempo e resultados. O professor, que faz esta gestão em sala de aula, não estará ali para realizar cobranças. Então entendemos que serão oportunidades para ambos os lados”, diz.

Justiça

O Tribunal Regional do Trabalho em Goiás suspendeu as atividades presenciais, como audiências. Mas neste período, o órgão continuará atuando. Inclusive os prazos estão mantidos. Segundo comunicado, tendo em vista que a tramitação é integralmente digital, as partes serão devidamente intimadas quanto à nova data de realização da audiência suspensa, sem necessidade de contato telefônico com a Vara por este motivo. Os servidores que trabalharem de casa continuarão a ter acesso ao sistema que permite, inclusive, conversas entre servidores e juízes sobre o andamento dos processos.

 

Mudança requer adaptação

Coordenador do MBA em Gestão e Transformação Digital e professor, Marsal Melo diz que o preparo tecnológico atual permite que empresas, principalmente, testem as possibilidades com o home office. “O mundo nunca mais será o mesmo. A tecnologia será protagonista e os empresários poderão perceber que é possível ter produtividade, alcance de metas e bons resultados sem a necessidade de que o funcionário tenha de bater ponto e trabalhar oito horas por dia”, defende.

Para Melo, a nova economia é baseada em conceitos tecnológicos o que, de certa forma, propicia esta mudança. “As grandes empresas de tecnologia estão oferecendo ferramentas de maneira gratuita neste período de pandemia para facilitar o home office. Entendo que depois, quando os resultados forem analisados, esta mudança de comportamento será oficializada, pelo menos em boa parte das empresas.”
 
Marsal Melo, no entanto, diz que existem desafios para que este tipo de sistema funcione. “As pessoas precisam ter consciência de suas responsabilidades, de como atuar em casa de maneira produtiva e, do outro lado, a empresa precisa criar meios para manter os funcionários engajados”, comenta. Para o coordenador do MBA, as experiências até agora são positivas e podem ser ainda mais benéficas. “Você reduz tempo das pessoas no trânsito, elas podem trabalhar nos horários mais convenientes e ainda existe o ganho na qualidade de vida.”

Ter um ambiente em casa que “funcione” como um escritório pode ser uma saída. “A pessoa que se dispõe ou que precisa atuar em home office precisa entender que naquele momento precisa se concentrar no trabalho. Eu, por exemplo, mesmo quando vou trabalhar em casa, me visto como se fosse para um escritório. Pra mim, é o que funciona.”

Ele reforça que os funcionários, com este modelo, ganham empoderamento, autogestão e autocontrole na sua relação com o trabalho. “O funcionário precisa ter responsabilidade para controlar seu tempo, se manter focado e ainda entregar suas metas. Isso independe de estar oito horas dentro de uma empresa, saindo apenas para almoçar. Quebra o paradigma de que ficar este tempo no trabalho é produtividade. É uma oportunidade de mudança cultural tendo a tecnologia a nosso favor.”


Bênçãos são dadas via internet

As igrejas também aderiram à internet para manter contato com os fiéis. Na Assembleia de Deus, os cultos que eram transmitidos pelas redes sociais passaram a ser o único meio para que os crentes tenham acesso à mensagem ministrada pelo pastor. “Esta foi a alternativa para evitar o contato das pessoas, evitar as aglomerações conforme foi solicitado. Entendemos que é uma medida que precisa ser obedecida para a saúde da população, apesar de resistência e até reclamação de algumas pessoas. Este é um momento que precisaremos abrir mão do contato físico, tão importante para nosso povo”, diz o pastor da Assembleia de Deus do Bairro Capuava, Nacivon Fonseca.

No caso desta igreja, as mensagens serão gravadas na igreja sede, que fica em Campinas. Apenas os pastores, equipe de música e equipe técnica participam do culto. “Tudo acontece da mesma forma, só que sem o público. O que transmitimos até agora eram os cultos normais, com muita gente. Desta vez, apenas os envolvidos na ministração oficial”, explica. O pastor ainda acrescenta que os fiéis podem interagir pelas redes, como Facebook. “Ter o contato, o abraço, é muito importante para o cristão. Mas precisamos respeitar este limite para evitar a doença.”

Além dos cultos, as igrejas Assembleia de Deus mantêm atividades diárias como ensaios de corais, grupos de teatros, de instrumentos musicais, além de reuniões de líderes, de jovens. “Todos os encontros foram suspensos e as reuniões de vigília e oração estão sendo feitos em casa, usando aplicativos de mensagem para nos organizarmos”, explica o pastor Nacivon.

Na igreja Fonte da Vida, as transmissões ao vivo pela internet também passou a ser prioridade. Apesar de não anunciar a suspensão dos cultos, a igreja orienta que não se deve mais dar as mãos em orações e os cumprimentos com abraços e apertos de mão devem ser trocados por um sorriso. Outra recomendação é trocar o momento de oração no altar por um momento de joelhos, cada um no lugar do seu assento e ministrar a benção com as mãos levantadas no lugar da imposição de mãos na sua cabeça. Pessoas acima de 75 anos foram orientadas a acompanhar os cultos transmitidos pela internet.