A ação foi simples: enviar duas mensagens de texto semanais durante um mês para estudantes e pais de alunos que cursam o Ensino Médio em Centros de Ensino em Período Integral (Cepi) de Goiás. O teor das mensagens é variado, mas a intenção de todas era incentivar os estudantes a concluir o ano letivo em meio à pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2). Dados do Instituto Sonho Grande, que elaborou e implantou o projeto em colaboração com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), mostram que a taxa de abandono entre os estudantes que receberam as mensagens foi 77,3% menor do que entre aqueles que não receberam.Goiás foi o Estado escolhido para a aplicação do projeto-piloto para constatação da eficácia do envio das mensagens. No período de envio, em junho, 1,37% dos estudantes do grupo dos que receberam as mensagens deixaram de ingressar nas plataformas educativas ou não entregaram as tarefas físicas por duas semanas consecutivas. A porcentagem foi de 6,03% entre aqueles que não receberam as mensagens.A evasão escolar sempre foi um problema no Brasil. Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), de 2018, mostram que de cada dez estudantes que iniciam essa etapa, menos de sete concluem os estudos. O problema se aprofunda mais ainda no contexto da pandemia da Covid-19, em que estudantes tiveram que começar a trabalhar para contribuir com a renda familiar e deixaram de se engajar nos estudos, seja por dificuldades de acesso às aulas não presenciais ou falta de interação diária com amigos e professores.A superintendente de Educação Integral da Seduc, Márcia Antunes, explica que quando a proposta foi apresentada à pasta, havia a esperança de que ela poderia funcionar, mas o sucesso da iniciativa surpreendeu. O resultado agradou tanto a Seduc, que o envio das mensagens foi estendido até o final do ano letivo. De acordo com Márcia, as escolas de tempo integral foram escolhidas por terem características próprias. “São instituições que envolvem muito a família e os estudantes com a escola e isso é superimportante para o bom desenvolvimento do aluno. Com a pandemia e o distanciamento social, esse contato ficou comprometido e tínhamos medo de que esses alunos pudessem abandonar os estudos”, explica.MensagensAs mensagens foram construídas se baseando nos pilares do ensino integral. “Os estudantes foram superimportantes nesse processo. Junto com o instituto, sentamos com eles e com professores para discutir quais eram as dúvidas, anseios e medos que eles tinham. Assim, conseguimos construir mensagens que tocaram os estudantes da forma certa, sempre com o intuito de fazer com que eles não abandonassem os estudos e muito menos os projetos de vida que têm construído”, explica.De acordo com ela, o resultado foi certeiro. “Recebemos muitos relatos de pais e estudantes felizes de saber que a escola se preocupava e se lembrava deles. Eles conseguiram se sentir integrados ao ambiente escolar novamente, mesmo neste contexto de distanciamento que vivemos”, enfatiza.Entretanto, Márcia acredita que o sucesso das mensagens de texto no combate à evasão escolar também ocorreu por conta do acompanhamento que as escolas e professores fizeram com os alunos. “Muitos estudantes tiveram que começar a trabalhar e nós olhamos para as particularidades de cada um de forma cuidadosa. Tivemos alunos que tiveram que sair da capital e voltar para o interior porque não tinham condições de morar em Goiânia e outros que foram morar com parentes”, relata. Isso tudo foi levado em conta pelos professores na hora de avaliar e ensinar esses adolescentes.A superintendente explica que para os estudantes que não têm acesso a celulares, computadores e internet, a atenção foi redobrada. “Contamos com ajuda dos Conselhos Tutelares e da Polícia Militar para montar uma rede de proteção e levar o material didático até esses alunos”, explica. De acordo com ela, as escolas integrais tentaram manter o contato mais próximo possível com esses estudantes. “Tínhamos professores e diretores que iam em casa ajudá-los. Em todo material impresso que era entregue para esses alunos, mandamos também uma carta de incentivo para eles”, diz. “Tivemos desafios, mas conseguimos segurar a frequência de alunos até o fim”, afirma. Metodologia precisa de continuidadeO sucesso do envio de mensagens de texto no combate à evasão escolar depende diretamente da continuidade do projeto. É o que explica a gerente de Relações Públicas do Instituto Sonho Grande, Mariana Polidorio. “É necessária uma manutenção e continuidade constante. Analisando os dados que obtivemos em Goiás, conseguimos perceber que, com o passar das semanas e o fim do envio das mensagens, o engajamento dos alunos que receberam o incentivo foi caindo”, explica. De acordo com ela, depois de sete semanas sem o envio de mais nenhuma mensagem, a participação desses estudantes e dos alunos que nunca receberam nenhuma mensagem já estava igual novamente. “Isso mostra que essa é uma política pública educacional que precisa ter continuidade para surtir efeito ao longo de um ano letivo”, pontua.Mariana esclarece que a metodologia de enviar mensagens de modo persistente na tentativa de influenciar o comportamento das pessoas já tem um histórico de sucesso. “Existe um trabalho extenso dentro da economia comportamental sobre isso. Essas intervenções surtem um efeito muito grande no comportamento das pessoas. Com base nessa informação, pensamos em como isso poderia contribuir de forma positiva na educação neste período de pandemia. Foi quando desenvolvemos essa estratégia”, explica.CanalMariana diz ainda que as mensagens de texto foram escolhidas como canal por serem um meio prático e barato. “Muitas pessoas também podem questionar o porquê de uma mensagem de texto e não de uma mensagem de WhatsApp, que é muito mais utilizado. Entretanto, essa decisão tem a ver com o fato de que muita gente não possui smartphone. Então, essa foi a maneira mais democrática que encontramos de alcançar a maior quantidade possível de pessoas”, explica. De acordo com ela, o projeto piloto iniciado em Goiás também já está em curso na Paraíba e também tem mostrado resultados positivos. A intenção agora é expandir a iniciativa para outros Estados brasileiros.-Imagem (1.2174497)