As reações às crises têm a capacidade de mostrar a ambiguidade de seres humanos. Se por um lado brota a solidariedade e empatia, por outro, comportamentos egoístas e desesperados. Sempre achei curioso o fato de a mesma raça que consegue criar instrumentos musicais, expressar sentimentos pela arte e prestar solidariedade seja capaz de escravizar, torturar, desprezar vidas de semelhantes (semelhantes no sentido abstrato, pois em concreto, é a desigualdade que coordena as relações).

Michele, meu xará e solidário amigo aqui de Milão me enviou um artigo que reforça esta percepção da complexidade da psiquê humana. Como seres racionais, o provável seria que a acumulação de experiências nos orientasse a adotar as medidas já testadas como mais acertadas. Explicando melhor o que quero dizer: em um artigo (LEspresso, 24 de março, de Gianfracesco Turano) o autor compara as reações havidas na Milão de quase quatro séculos atrás quando acometida por uma peste. Negacionismo, retardo nas ações políticas, adoção de medidas contraditórias, “caça” ao causador externo, e chama a atenção de que nem os avanços científicos e tecnológicos foram capazes de evitar comportamentos parecidos na crise da Covid-19.

Um roteiro semelhante ao que vivenciamos em menor grau em Milão, mas mais acentuado no Brasil (para onde minha preocupação está voltada, apesar de numericamente a situação aqui ser bem mais alarmante). Na Milão de 1629/1630, houve o alerta de que medidas sanitárias deveriam ser tomadas, mas elas foram postergadas por temor do impacto que causariam na economia. O governador ordenou grande celebração pelo nascimento do primogênito de Felipe IV da Espanha, a Páscoa foi celebrada como se não houvesse um contágio acelerado em curso. Resumo da ópera, a população de Milão caiu de 250 mil para 64 mil habitantes, segundo dados históricos. Morreram 1,1 milhão de pessoas na Itália setentrional.

O período traumático foi romanceado em 1827 por Alessandro Manzoni em “I promesi sposi”, obra considerada uma das mais importantes e mais lidas dentre as escritas em língua italiana. Esta sequência guarda alguma semelhança com o momento atual? Obviamente que não tenho aqui a intenção de ser a portadora do apocalipse, mas creio que é importante que tenhamos a humildade de aprender com os erros e acertos acumulados em nossa trajetória e, no momento atual, basta vermos as fotos de caixões em caminhões do Exército e o número de mortos na cidade de Bérgamo que, no afã de salvaguardar sua economia, vê-se diante de uma situação dramática. Espero que o romance que retrate esta época atual mostre como a nossa humildade e solidariedade podem ser expressadas por meio da arte.