O titular da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH), Rômulo Matos, acredita que a secretária Municipal de Saúde de Goiânia, Fátima Mrue, e o prefeito Iris Rezende (MDB) não serão indiciados no inquérito que apura casos de mortes de duas pacientes à espera de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Uma delas, em 2016, aconteceu antes que os gestores assumissem os respectivos cargos. Quanto ao outro, de outubro de 2017, o investigador pondera que dificilmente surgirão indícios que os liguem aos óbitos. O procedimento foi aberto em 14 de março e não tem previsão para ser encerrado.Um dos casos investigados é o de Isaura Ribeiro Carvalho, morta aos 58 anos no dia 5 de setembro de 2016. Ela foi diagnosticada com leucemia e estava internada no Cais Chácara do Governador, em Goiânia, desde o dia 2 daquele mês à espera de um leito de UTI, que nunca foi disponibilizado.O outro caso é o de Julma Alves da Luz, que faleceu aos 64 anos. Ela foi internada com sintomas de pneumonia no Cais Nova Era, em Aparecida de Goiânia, no dia 12 de julho de 2017. No dia seguinte, foi levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Geraldo Magella, também em Aparecida, onde ficou internada até o dia 19 daquele mês, quando sofreu uma parada cardíaca, que causou seu óbito.“Em âmbito criminal, acredito que não haverá qualquer responsabilização (à Fátima e ao Iris), até mesmo porque só podemos falar em responsabilidade criminal quando demonstramos um nexo causal, ou seja, a conduta que propiciou um resultado”, disse o delegado. “Essa ligação nesses casos em concreto certamente não atingirá a secretária nem o prefeito. A responsabilidade certamente ficará entre o médico regulador e o gestor do hospital prestador de serviço que eventualmente negou a vaga por motivo que não seja técnico”, explicou.Rômulo ressaltou que a recusa de vagas, por si só, não configura ilegalidade, já que os leitos de UTI podem possuir especificidades para atender pacientes de determinados perfis. Entretanto, ele pondera que essas negativas devem adotar critérios técnicos, enquanto as denúncias da CEI apontavam para motivações “imorais”, como a preferência por pacientes que pudessem causar menos gastos à unidades hospitalar.Poder de seleçãoDe acordo com o delegado, as apurações feitas até agora apontam que em 2016 e no início de 2017 os servidores ou médicos dos hospitais credenciados ou conveniados tinham um grande poder de decisão sobre a seleção de pacientes que entrariam em suas unidades. “Essa discricionariedade dava margem a critérios técnicos e também que, eventualmente, de forma não técnica, se fizesse uma escolha muitas vezes visando inclusive ao lucro”, ressaltou.Irmã lamenta morte de idosa em CaisUm dos casos apurados é o de Isaura, que veio a Goiânia em 2015 em busca de uma solução para o problema de saúde que sofria. No Pará, onde trabalhava como cozinheira, repentinamente ela começou a se sentir cansada sem um motivo aparente. Ela veio para Goiânia ficar com parentes e, meses depois, foi diagnosticada com leucemia. Uma vaga em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) poderia ser salvação, mas apesar da insistência da família, ela nunca veio, e a mulher acabou morrendo aos 58 anos de idade internada em um Cais.A irmã dela, Vera Lúcia Ribeiro, de 48 anos, foi cuidada por Isaura como se fosse uma filha. Ela revela que a irmã sempre foi muito ativa, mas teve que deixar de trabalhar em decorrência da doença. Após uma hematol ogista confirmar sua doença, ela ficou internada no Cais Chácara do Governador, onde teve início a batalha por um leito de UTI.“Eu ligava na regulação de 10 em 10 minutos e eles falavam que não tinha vaga. O médico mesmo do hospital falou ‘Vera, vai ao Ministério Público. Se não for, não vai conseguir’, contou. “Eu fui em um fim de semana, no plantão, registrei o caso e ficaram de passar para o oficial de Justiça, mas a vaga nunca veio”, lamentou.Vera não tem dúvidas de que a irmã teria sobrevivido caso tivesse conseguido um leito de UTI. “É uma coisa complicada esse sistema de saúde. A gente sofreu muito.”Secretária nega conhecer seleção de pacientes Em entrevista coletiva, Fátima declarou desconhecer qualquer esquema de seleção de vagas de UTI com base em critérios de despesas. “Essa informação não foi produzida por nós. O que tenho a dizer é que temos instituído processos de trabalho que evitam que distorções ocorram ao longo da prestação de serviços de saúde em Goiânia”, ressaltou.Para a secretária, há uma dificuldade de compreensão por parte da sociedade de como funciona o sistema de regulação. “Os leitos disponíveis, às vezes, não atendem a um perfil de paciente”, pontuou. “Isso traz uma informação equivocada por parte de quem vê a vaga e vê um paciente precisando de um leito de UTI.”Sobre os dois casos apurados pela DIH, Fátima afirmou acreditar que todas as providências tenham sido tomadas adequadamente. “Afirmo que pelas informações médicas da unidade solicitante, de Aparecida, a paciente estava sendo assistida, inclusive com ventilação mecânica”, disse sobre o caso de Julma. O posicionamento é semelhante ao do caso de Isadora. “Ela estava sendo assistida na unidade solicitante, naquela época, em outra gestão, e acredito que as medidas necessárias tenham sido tomadas adequadamente”, frisou. “As vagas que estavam disponíveis na época acredito que estavam sendo disponibilizadas para a fila de pacientes que já aguardavam.” Sem indiciamentoAté esta terça-feira (22), pairava sobre Fátima a possibilidade de ser indiciada por desobediência. Ela teria deixado de comparecer a três depoimentos da DIH e não teria fornecido as documentações requisitadas sobre os casos investigados. No entanto, com o comparecimento dela à DIH na manhã de ontem, a hipótese foi descartada.Após o depoimento de Fátima, o delegado Rômulo Matos descartou seu indiciamento por desobediência. “Hoje ela compareceu bem intencionada, apresentou os documentos requisitados. Justificou suas ausências”, disse.