A contratação de profissionais de saúde tem aumentado com a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) em Goiás. Só em Goiânia, Aparecida e Anápolis, mais de 1.500 profissionais foram admitidos ou habilitados para futuras contratações nos últimos dias. A procura tem se concentrado em hospitais de campanha estaduais, nas secretarias municipais de Saúde de cidades maiores, e em unidades federais. Nos estabelecimentos particulares, a demanda de pacientes tem caído e não há previsão de contratações.

Segundo representantes de hospitais, gestores e profissionais ouvidos pela reportagem, este crescimento na procura tem três justificativas: atender a previsão do aumento de infectados pelo vírus, que deve chegar ao pico no final do mês; suprir o afastamento de profissionais que devem ser contagiados durante a pandemia; e suprir o afastamento de profissionais idosos e com comorbidades, grupo de risco para o Covid-19.

O maior número de contratados é pela prefeitura de Aparecida de Goiânia. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da cidade decidiu antecipar a admissão de 731 profissionais que estavam credenciados, que é uma espécie de cadastro de reserva. Novas convocações devem ser feitas conforme a demanda.

Já o Hospital de Campanha de Goiânia (HCamp), que funciona no prédio do hospital do servidor, contratou mais de 400 profissionais. As admissões foram feitas pela organização social (OS) Associação Goiana de Integralização e Reabilitação (Agir), que administra a unidade. São previstas novas grandes contratações de profissionais nos próximos hospitais de campanha que serão abertos, em Luziânia e Águas Lindas. As OSs que vão realizar a administração destas unidades e essas contratações ainda serão definidas.

No Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) está sendo feita uma avaliação interna para realocar profissionais da própria unidade, que estão em locais onde foi preciso restringir atendimentos para evitar aglomerações. Também haverá um reforço com novos profissionais contratados em um processo seletivo temporário da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que administra a unidade. A quantidade de novos profissionais ainda não foi divulgada.

A demanda por mais profissionais existe em cidades com hospitais de campanha, com mais habitantes e casos confirmados. A presidente do Conselho de Secretarias Municipais do Estado de Goiás (Cosems), Verônica Savatin Wottrich, conta que na maior parte dos municípios não há esta demanda no momento. Ela explica que atualmente, as demandas têm sido por garantir equipamentos de proteção individual, os EPIs, e uma maior rapidez dos testes de Covid-19.

No entanto, ela reconhece que a demanda por mais profissionais deve aumentar conforme a doença for se espalhando pelos municípios. “Quando começarem a estourar casos em todos os municípios, todo mundo vai precisar contratar alguém. Não consegue ficar com equipe normal”, avalia a presidente.

Questões trabalhistas

A presidente do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), Franscine Leão, faz dois questionamentos sobre estes profissionais que vão estar na linha de frente do combate ao Covid-19: o pagamento do profissional que adoecer enquanto estiver de atestado e a responsabilização do profissional.

Segundo Franscine Leão, há uma brecha no contrato dos médicos credenciados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia, por exemplo, que torna o médico total responsável pelo atendimento ao paciente. Assim, na interpretação da presidente do Simego, isso pode criar complicações em um cenário hipotético de falta de EPIs, por exemplo. “Algumas imposições do contrato são desrespeitosas aos profissionais”, avalia.

Outra questão apontada por Franscine Leão é em relação aos profissionais que pegarem o Covid-19. Segundo ela, em alguns tipos de contrato, a maior parte do salário do médico é flutuante e depende da lotação, insalubridade e deslocamento. Os médicos credenciados no município, por exemplo, não têm garantidos 14 dias afastados com ressarcimento, que é o período previsto para casos de pessoas com sintomas respiratórios.

Hospitais particulares

Diferente dos hospitais públicos, a rede privada de Saúde de Goiás tem registrado a diminuição de atendimento por causa da suspensão de serviços que não são de urgência e emergência e, por isso, as unidades particulares de saúde não prevêem a contratação de novos profissionais. Em alguns casos há migração de médicos e enfermeiros mais especializados para o Hospital de Campanha de Goiânia (HCamp), primeira unidade pública específica para os casos de novo coronavírus. 

É o que aponta o presidente da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade de Goiás (Ahpaceg-GO), Haikal Helou. “Tivemos uma redução muito grande do nosso trabalho. Para você ter uma ideia, de 80% a 90% do trabalho de um hospital de alta complexidade envolve procedimentos de cirurgias eletivas, que não são de emergência”, explica. Houve suspensão de cirurgias eletivas por conta da pandemia. 

Helou afirma que também houve uma migração de profissionais mais especializados para o HCamp, segundo ele, isso sempre acontece quando um novo hospital é inaugurado. Esses profissionais, de acordo com o presidente da Ahpaceg-GO, têm um perfil técnico específico: “Estamos falando de pessoas que são altamente treinadas, onde vai fazer falta não é na enfermaria ou recepção, é na UTI (unidade de terapia intensiva), no isolamento, no pronto-socorro. Os profissionais mais treinados que temos”, define. 

No futuro talvez 

O presidente da Associação dos Hospitais do Estado de Goiás (Aheg), Adelvânio Francisco Morato, diz não perceber essa migração, mas reconhece a baixa de atendimentos na rede privada. “A rede privada está atendendo hoje em torno de 10% a 30% de sua capacidade, está com uma ociosidade tremenda”, avalia. 

Além das cirurgias eletivas, ele diz que há uma mudança comportamental dos paciente que estão com receio de ir até o hospital em meio à pandemia. “As pessoas estão com medo de ir ao hospital, acham que se for ao hospital vão contaminar.”

Segundo Morato, que também é presidente da Federação Brasileira de Hospitais, está sendo feito um trabalho junto ao governo federal para que a rede hospitalar sobreviva à pandemia. “Precisamos de um sistema de crédito especial para hospitais com juros baixos e carência”, avalia.

O presidente da Aheg prevê ainda que novas contratações de hospitais privadas só devem acontecer em um cenário de muitos infectados. “Se por acaso tiver esse pico, vai ter que recorrer aos hospitais privados. Os privados vão ter que se colocar à disposição para ajudar. Em momentos como esse não pode existir público e privado, tem que trabalhar em conjunto”, disse Morato

De acordo com o presidente da Aheg, os hospitais privados que vem recebendo pacientes com suspeita de Covid-19 via planos de saúde (Ipasgo e Unimed na maioria dos casos) já estão equipados o suficiente para a demanda atual e por isso não realizam novas contratações. 

A Ahpaceg também teme pelo futuro dos hospitais privados pós-pandemia. “Não estamos sentindo na pele porque nosso movimento caiu muito, mas quando nós voltarmos dessa quarentena e voltar a fazer o que fazíamos antes, o baque vai ser muito forte”, comentou o presidente da instituição.

 

Fique por dentro

Hospitais realizam cadastramento e contratação de profissionais de Saúde para crise do novo coronavírus 

Secretaria Municipal de Goiânia: Credenciamento de médicos está aberto, novos profissionais devem chegar do Mais Médicos, Câmara deve aprovar continuidade de 400 temporários 

Secretaria Municipal de Anápolis: Habilitou 438 novos médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e biomédicos. Serão convocados conforme necessidade

Secretaria Municipal de Aparecida de Goiânia: Antecipou a contratação de 731 profissionais credenciados. Novos processos seletivos serão abertos 

Hospital de Campanha (HCamp): 406 profissionais contratados pela organização social Agir, que administra a unidade

Hospital das Clínicas (HC): Processo seletivo temporário da Rede Ebserh, que administra a unidade, deve contratar novos profissionais, mas quantidade ainda não foi divulgada 

Secretaria Estadual de Saúde (SES-GO): Novos profissionais serão contratados para hospitais de campanha, mas quantidade ainda está sendo definida. Contratações serão feitas por organizações sociais (OSs)