Na recepção do Pronto-Socorro Wassily Chuc, J.A, de 32 anos, aguardava ontem à noite autorização para internação. “Estou com perturbação, ouvindo vozes”, contou.

J.A, a irmã, a mãe e duas crianças estavam no local desde a manhã, quando o rapaz foi consultado e o médico o encaminhou para internação. Esta foi a primeira vez de J.A no Wassily Chuc e, apesar da demora para conseguir a guia de internação, ele não reclamava. “Não tem outro hospital que atenda”, justificou a mãe. “A maioria manda ele de volta para casa.”

O hospital, que é única porta de entrada para internação de pessoas com transtornos mentais e dependentes de droga e álcool, está para ser fechado. O secretário municipal de Saúde (SMS) de Goiânia, Fernando Machado, fez o anúncio extraoficialmente depois da constatação da precariedade da estrutura. Com isso, pelo menos 46 leitos serão fechados e mais de 1 mil atendimentos por ano estarão comprometidos. Porém, ainda não há da data definida para isso acontecer.

Pessoas como K.F ficarão ainda mais perdidas ao ter de cuidar de parentes em surto. Ela trouxe a irmã Rosa para o Wassily Chuc às 5h30 de ontem, após uma crise de agressividade. A irmã foi encaminhada ao Hospital de Urgências de Goiânia para fazer uma tomografia e retornou ao pronto-socorro onde, à noite, ainda aguardava uma vaga na rede hospitalar conveniada.

Atualmente, apenas três hospitais recebem pacientes do Wassily Chuc para internação, o que resulta na superlotação do pronto-socorro. “Os médicos daqui fazem tudo para internar os pacientes, mas não há vaga”, relata um porteiro. “Cama tem, mas não tem colchão porque os pacientes rasgam, sujam”, conta outra funcionária.

A falta de estrutura do Wassily Chuc foi denunciada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde) e pelo vereador Djalma Araújo (SD) após uma visita no inicio do mês passado, que constatou paredes mofadas, banheiros sujos e estrutura elétrica prejudicada (veja quadro).

Mas essa estrutura atendeu por três vezes J. M., de 44 anos. Dependente químico, ele mora em Posse, a 424 quilômetros da capital, e só consegue atendimento no Wassily Chuc quando entra em surto. “Ele fica louco, quebra tudo e tem de ser internado”, relata a irmã.

O relatório, feito a partir da visita ao pronto-socorro, mostra que pacientes permanecem presos dentro das grades por mais de 18 horas por dia com direito a um banho de sol apenas. Uma funcionária que trabalha no local afirma que a falta de espaço e de atividades é o que torna o ambiente complicado. “Os pacientes em crise de agressividade dificilmente são contidos sem essas atividades auxiliares”, relata. O relatório aponta que alguns pacientes chegam a ser amarrados nas camas por falta de ambiente adequado.

Uma nova vistoria está agendada para hoje, desta vez com a presença da Comissão de Direitos Humanos da OAB, que recebeu as denúncias. Segundo a presidente da comissão, Mônica Araújo de Moura, a visita tem o intuito de avaliar as condições físicas e humanas do local e pedir providências para sanar os problemas. Moura avalia ainda que o possível fechamento do pronto-socorro pode criar mais problemas do que necessariamente solucioná-los. “As famílias chegam a abandonar os parentes por não saber lidar com os problemas. Nesse sentido, é essencial que o poder público ofereça suporte.”

 

"Fechar o Wassily Chuc de uma hora para outra pode agravar o problema. Devemos lutar por tratamentos humanizados.”
Mônica Araújo de Mourapresidente da comissão de Direitos Humanos da OAB