“O que a gente percebe aqui é um clima muito diferente de um hospital convencional. Eu não imaginava isso. A doença tem um efeito colateral não totalmente entendido que é o medo e a insegurança do pessoal da linha de frente.” A observação é do médico Guillermo Sócrates Pinheiro de Lemos, diretor geral do Hospital de Campanha para o Enfrentamento ao Coronavírus (Hcamp), inaugurado pelo governo de Goiás no último dia 26 de março. O temor do desconhecido e as incertezas trazidos pela pandemia do novo vírus se disseminaram mundo afora entre os profissionais de saúde e por aqui não é diferente. Reconhecidos e reverenciados pela luta contra a doença, eles são obrigados a enfrentar uma batalha pessoal diária. De um lado o compromisso profissional, de outro o temor da contaminação e de levar o vírus a familiares.

Desde que a unidade abriu as portas para receber os casos graves de síndromes respiratórias agudas, o infectologista de 42 anos que antes trabalhava no Hospital de Urgências Governador Otávio Lage (Hugol) notou a diferença de ambiente. “A gente vê uma equipe preocupada, às vezes entrando em estresse emocional, com comportamentos não habituais, como choro”, conta. Embora o quadro esteja completo, as substituições são frequentes. Guillermo de Lemos revela que vivenciou no Hcamp um tempo recorde de trabalho de um profissional. “Em uma hora e meia de atuação ele apresentou sua desistência.”

Até a última quinta-feira (16), 16 pacientes morreram no Hcamp com suspeita de Covid-19, uma doença nova, repleta de incógnitas. Segundo o infectologista, o temor de contaminação reside principalmente entre profissionais jovens, com filhos pequenos. “A pessoa pensa em casa, tem medo não apenas de se contaminar, mas também de levar o vírus para a família. Ainda temos dificuldades de entender o comportamento do vírus. Não há vacinas nem medicamentos efetivos. Ele não difere gênero, raça nem idade. Nada é convencional.” Pai de um casal de filhos, Felipe e Geovana, de 10 e 12 anos, Guillermo teve de administrar o medo no ambiente familiar. “Quando avisei que assumiria o Hcamp minha filha chorou muito e ficou uma noite sem dormir.”

Presidente do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), Franscine Leão Rodrigues Acar Pereira conhece bem esta realidade. A história pessoal dela imprime à rotina profissional inquietação e temor, mas ao mesmo tempo ela precisa ficar atenta às demandas da categoria que não têm sido poucas neste momento de pandemia. “No início passei por uma fase de adoecimento mental: crise de ansiedade na véspera de plantões, desespero e revolta, mas agora entrei numa etapa de resiliência, de aceitação de que cedo ou tarde todos vão contrair o vírus.”

Franscine, de 37 anos, mãe de uma menina prestes a completar 4 anos, é asmática grave, dependente de corticoides pelo menos quatro meses por ano. A doença é uma sequela funcional adquirida em 2016 no surto de H1N1 quando ela estava nos últimos meses de gravidez. “Tive de fazer cesariana e durante o parto passei por insuficiência respiratória. Eu sei o que é sentir falta de ar.” O medo de se contaminar durante os plantões na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Trindade a fez diminuir a carga horária.

“Eu optei apenas por um plantão por semana ao invés de dois. Tenho uma filha pequena, sei a falta que uma mãe faz porque perdi a minha muito cedo, quando ela estava com apenas 45 anos. E morreu de pneumonia”, relata Franscine. Ela conta que no início da pandemia chorava muito antes de ir para o trabalho porque vinha acompanhando a morte de colegas ao redor do mundo. “Agora, as coisas melhoraram, há equipamentos de proteção individual (EPIs), mas ir para a linha de frente do atendimento sem a paramentação mínima preconizada é como ir à guerra sem armas.”

Médico relata apreensão e lágrimas pelos corredores de hospitais

Aos 57 anos, o médico intensivista Hélvio Martins Gervásio é um dos profissionais de saúde que mais está em contato com pacientes acometidos ou com suspeita de Covid-19 em Goiás. Nos estabelecimentos privados onde atua, o Hospital do Coração Anis Rassi e o Hospital do Coração de Goiás, ambos em Goiânia, ele também percebe que há muitos colegas abalados emocionalmente. “As reações são diversas. Alguns lidam bem com a situação, confiam nos EPIs, mas outros que possuem filhos pequenos têm medo de levar o vírus para dentro de casa. Já vi muita gente chorando pelos corredores.” 

Foi na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital do Coração que morreu no dia 4 deste mês a técnica em enfermagem e de laboratório Adelita Ribeiro da Silva, de 37 anos. Ela trabalhava na unidade do Hemolabor dentro do hospital e na UPA do Jardim Novo Mundo, região Leste da capital. “Quando ela veio a óbito houve uma depressão geral, muitas enfermeiras chorando. É uma doença muito grave e nós nunca passamos por isso”, diz o médico. Segundo Hélvio Martins, a maratona de trabalho é intensa. “Saio de casa às 5 da manhã e retorno às 19 horas. As visitas são demoradas por causa dos paramentos que precisam ser substituídos com frequência e precisamos ler muito sobre a doença que é nova.” 

O intensivista falou com o POPULAR num pequeno intervalo de visitas quando pedia um sanduíche num drive thru. “Os restaurantes estão fechados e no hospital todos têm medo de pegar o vírus, por isso evito o contato com os colegas. Prefiro sair e comer algo fora.” O médico ressalta que os hospitais onde trabalha submeteram suas equipes a treinamentos rigorosos para evitar a contaminação e não faltam EPIs. “Estou bem tranquilo, me protegendo e protegendo as pessoas perto de mim, mas às vezes fico triste quando vejo colegas contaminados. O índice de transmissão do vírus é de 15% dentro dos hospitais.”