Em meio à pandemia do novo coronavírus, profissionais de Saúde têm relatado a falta e escassez de equipamentos de proteção individual, os EPIs, em Cais, UPAs e hospitais da Região Metropolitana de Goiânia (RMG). Máscaras e aventais estão entre os itens com mais reclamação de falta. Empresas que fornecem esses produtos tem pedido reajuste de preço, que teria aumentado, além da falta na fabricante.

No Cais Nova Era, em Aparecida de Goiânia, os próprios médicos estão tendo que comprar máscaras do tipo N95, que são mais caras e utilizadas em procedimentos mais delicados, como na intubação de pacientes graves. “Se o profissional recusa atendimento por falta de equipamento é assediado moralmente pelos diretores. Estão fazendo atendimento mesmo sem proteção”, descreve um médico da unidade, que pediu para não ser identificado. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Aparecida nega a falta de equipamentos.

Mesmo os médicos comprando a máscara específica do próprio bolso, não está fácil encontrá-la nas lojas. Na Unicom Produtos Hospitalares, no Setor Leste Universitário, na capital, as máscaras do tipo N95 estão em falta há um mês. Já as do tipo PFF2, que pode substituir a N95, por também ter capacidade de filtrar o ar, acabaram na semana passada. Segundo atendente ouvido pela reportagem, os fornecedores não deram prazo de quando haverá reposição.

Na Medlinn Hospitalar, na Vila Brasília, em Aparecida, também há falta de máscaras N95 e de outras similares. “Geralmente o fornecedor fala que não conseguiu importar matéria prima e não consegue fabricar”, explica um funcionário da empresa.

As máscaras N95 são utilizadas em momentos delicados no tratamento do paciente com o novo coronavírus. Quando ele está sendo submetido a algum procedimento mais invasivo há a presença de aerossóis, micro partículas liberadas do paciente que ficam mais tempo no ar e podem infectar a equipe médica.

“Para essa situação, uma máscara comum não protege o profissional que estiver realizando (o procedimento). Nesse o momento, a pessoa tem que estar paramentada para evitar esses aerossóis”, explica o médico infectologista, Boaventura Braz de Queiroz. Nesses casos, o ideal, segundo o especialista, é que seja colocada um protetor de face, além da máscara, e o capote, que é o avental cirúrgico do profissional.

Preservar o médico

A presidente do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), Franscine Leão, alerta para a necessidade de preservar a vida e saúde dos médicos mais experientes. Sem os EPIs devidos, isso não acontece. Ela explica que não é todo tipo de profissional que sabe fazer um atendimento de um caso grave de coronavírus e usar com eficiência um laringoscópio, por exemplo, equipamento manipulado em uma intubação.

“O que adianta ter o profissional doente diante de uma pandemia? O profissional que está há muito tempo no mercado particular, não está na emergência, perde a mão. A medicina é fazer, fazer, fazer e fazer várias vezes. Você perde a experiência se não tem hábito de aplicar uma atividade”, avalia Franscine.

No meio médico, mensagens humorísticas compartilhadas pelas redes sociais alertam para esse risco. “Fique em casa. A menos que você queira ser entubado por um psiquiatra”, diz uma mensagem ilustrada com a foto do psiquiatra Sigmund Freud.

 

Unidades básicas concentram denúncias de escassez de material

O Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) e o Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO) receberam dezenas de denúncias de profissionais relatando falta de equipamento de proteção individual, os EPIs, em unidades de saúde e hospitais da Região Metropolitana de Goiânia (RMG).
 
Segundo o Simego, o único equipamento que não teria tido relato de escassez foi a luva. Já o Sindsaúde recebeu denúncias de falta de todos os tipos de EPIs. Entre as unidades com denúncias estão os cais Urias Magalhães, Novo Horizonte, 
Amendoeiras, Vila Nova e a UPA Noroeste. A maior parte das denúncias que chegam no Simego são do Cais Vila Nova e de unidades menores de Goiânia.
 
O Sindsaúde e o Simego consideram que todos os profissionais das unidades, como da recepção, segurança e limpeza, devem utilizar a máscara cirúrgica, que é mais barata, branca, feita com material mais maleável e que deve ser trocada de duas em duas horas. 

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia segue nota técnica da 
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atualizada em 2020 que entende que a máscara cirúrgica só deve ser oferecida para o profissional que precisa ficar a menos de um metro do paciente. 

A pasta orienta que o recepcionista, por exemplo, deve fazer o atendimento a um metro de distância do paciente e não precisa usar máscara.
 
“Porém, se ele atender uma pessoa com sintomas de gripe, ele deve oferecer a máscara para o paciente”, diz nota do órgão enviado para a reportagem. 
Já as entidades entendem que o recepcionista deve usar a máscara cirúrgica porque ele está em um ambiente de risco e pode estar tendo contato com contaminados pelo coronavírus assintomáticos. 

“Quem garante que o paciente não é suspeito, se nem exame estão fazendo direito”, argumenta a presidente do Sindsaúde.