De pouco em pouco, os contratos temporários na educação em Goiás foram tomando espaço e atingiu, desde o ano passado, uma situação inédita na rede estadual de ensino. Pela primeira vez, o total de professores temporários ultrapassou a quantidade de professores concursados, na maioria das cidades goianas. A partir do cruzamento de dados das últimas edições do Censo Escolar, produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a reportagem verificou que tal contexto passou a ser realidade, em 2018, nas escolas estaduais de 129 municípios, ou seja, 52,4% do total de cidades do Estado. A variação oscilou bruscamente em relação a 2017, quando o total de municípios com maioria de temporários era 85, o que representava 34,5% das cidades goianas. O que se verifica, pelo menos desde 2012, início da análise dos dados feita pela reportagem e quando a rede estadual tinha mais temporários do que concursados em apenas 16 municípios, é uma tendência acentuada de diminuição dos professores efetivos em favor do aumento significativo daqueles contratados temporariamente. Em seis anos, 5.230 profissionais de carreira saíram da rede de ensino estadual, enquanto 6.174 professores temporários foram contratados para repor (veja quadro na página 14). Em muito, além da previsível aposentadoria de uma parcela dos efetivos, que contribui para reduzir o número de ativos a cada ano, o quadro atual se explica, claro, pela ausência do que seria necessário para contrapor esse cenário, que é a realização de concursos públicos. Há nove anos o Estado não promove um certame de peso na área da Educação para repor professores. No ano passado, um concurso foi realizado, oferecendo 900 vagas para interessados em lecionar nas áreas de Biologia, Química, Matemática e Física. O número ofertado, no entanto, foi criticado pela categoria por estar muito distante do real déficit de profissionais. A solução encontrada pelo Estado por meio da contratação de temporários gera consequências. Do ponto de vista financeiro, ela é atrativa para a gestão pública, pois o salário de um professor temporário é a metade do que é pago, geralmente, a um profissional efetivo, muitas vezes, inclusive, abaixo do piso da categoria. Para a qualidade do ensino, porém, as circunstâncias geradas e enfrentadas no dia a dia escolar são preocupantes, na visão de especialistas, passando por situações de rotatividade, alternância de professores, descontinuidade pedagógica e dificuldade de se atingir uma boa formação profissional, que demanda tempo de experiência e atuação na rede.CONFLITO“Já há muito tempo, temos insistido em praticamente todos os nossos votos no Conselho que é preciso equacionar essa situação dos professores”, conta o presidente do Conselho Estadual de Educação em Goiás, Marcos Elias Moreira. Ele diz enxergar certo conflito entre o discurso de busca da melhor qualidade da educação pública e a prática que se repete, por meio da contratação de temporários, pois dificulta, na visão dele, uma dos aspectos mais relevantes do processo educacional, que é fomentar uma política de formação de professores. “Como você tem política de formação se o professor não está ali pensando numa carreira? Hoje está e amanhã não mais... Isso gera problemas na formação e na implementação da política educacional”, aponta.Em números gerais, Goiás atingiu no ano passado um porcentual de professores temporários atuando na rede estadual de ensino (49,7%) que o colocou entre os 14 estados brasileiros acima da média nacional, que é 40,68%. Nesse contexto de praticamente metade dos educadores em atividade nos colégios goianos, hoje, ser provida por meio de contratos, existem casos de municípios onde o total de temporários chega a ser 15 vezes maior que o de efetivos e, ainda, tem locais onde todos os professores em exercício são desta categoria. Sem eles, os colégios não funcionariam ou os alunos ficariam sem aula.Esse é o caso das escolas estaduais de Gameleira de Goiás e de São João da Paraúna, municípios pequenos, de população reduzida, com menos de 4 mil habitantes, mas onde, já há alguns anos, o funcionamento e oferta da educação pública dependem da atuação de professores temporários. No Colégio Estadual Cônego Trindade, por exemplo, única unidade do Estado em São João e onde o total de alunos oscila entre 150 e 170 todos os anos, a diretora Alessandra Carreiro Borges precisa se esforçar com frequência para encontrar professores capacitados e com disponibilidade para ocupar as vagas ociosas.Hoje, de 17 funcionários, apenas três são efetivos no colégio - ela, a secretária e um vigilante. O restante é composto por temporários, que, diante da incerteza e insegurança dos contratos, muitas vezes, optam por oportunidades melhores ou saem quando convocados para assumir vagas de concurso em outros locais. Não raro, a necessidade de repor professores bate à porta da diretoria, independentemente se é meio de bimestre ou em pleno ano letivo. Resta à gestora a função de buscar opções não só na cidade, mas na região. Poucos profissionais moram em São João. A maioria reside nos municípios próximos: Aurilândia, Paraúna e Firminópolis.O colégio, que existe desde 1981, quase foi fechado no passado, em razão do baixo desempenho obtido no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para evitar que os alunos ficassem sem aula, entre a saída e entrada de um novo professor, Alessandra e a coordenadora já chegaram a pagar do próprio bolso as diárias de um profissional até que o contrato fosse efetivado e autorizado pelo Estado.