Professora titular do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), Nattane Luiza da Costa chegou aos 25 anos na sexta-feira (25) cultivando o jeito e a alegria de menina. Foi um dia de dupla comemoração porque, uma semana antes, aos 24, ela conquistou o título de doutora em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Goiás, sem pular etapas na formação acadêmica. Nattane Luiza fez a primeira defesa de doutorado no recém-criado Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação da UFG e se tornou a mais jovem aluna a obter o título de doutora da instituição.

Natural de Palmelo, município do Sudeste de Goiás com menos de 3 mil habitantes, Nattane sempre estudou em escolas públicas em sua cidade. E sem se distanciar dos pais, o professor da rede pública Barsanulfo Zaruh da Costa, aposentado, e a comerciante Adriana Luíza Gonçalves da Costa, optou pela graduação na unidade da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Pires do Rio. “Tinha 15 anos e estava no segundo ano do ensino médio. Fui prestar vestibular para treinar”, conta.

Não deu outra, seu nome apareceu entre os aprovados para o curso de Tecnologia em Redes de Computadores na UEG de Pires do Rio. Nattane estava convicta do caminho que iria percorrer porque já havia se encantado com o mestrado na área de Química do único irmão, Maxuell, oito anos mais velho. “Era o que eu queria”. O pai conseguiu na Justiça uma liminar para que Natanne frequentasse o curso universitário. “Passei o primeiro ano fazendo faculdade à noite e o terceiro ano do ensino médio de manhã.”

Aos 18, recém-graduada, se tornou professora substituta no IF Goiano, no campus de Urutaí, onde o irmão já integrava o corpo docente, e logo começou o mestrado na UFG. “Quando ela chegou, era uma adolescente. Não imaginei que fosse tão longe. Seu crescimento exponencial foi muito rápido porque é uma aluna focada. Ela me surpreendeu ano após ano”, diz o orientador de Nattane na UFG, professor doutor Rommel Melgaço Barbosa.

Entre o mestrado, que concluiu em 2016, e o doutorado, Nattane também se dedicou à pesquisa na área de mineração de dados, envolvendo aplicações para a autenticação de vinhos e em setores da saúde, além de estudos teóricos sobre algoritmos de classificação e de seleção de variáveis. A jovem doutora já publicou 11 artigos científicos em revistas internacionais e seu nome foi mencionado em mais de 130 citações. Em 2019, com pouco mais de 20 anos, foi aprovada em concurso do IF Goiano, tornando-se docente titular da cadeira de Ciências da Computação no câmpus de Urutaí.

A agora doutora em Ciência da Computação conta que ao optar pela dedicação ao estudo, na área de exatas, não deixou de aproveitar a sua juventude. “Usei muito a internet não somente para estudar, mas também para aprender coisas que me interessavam. Aprendi a tocar violão e fiz cursos de pintura e de crochê”, detalha.

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Nattane sabe que está entre os mais jovens doutores do Brasil, mas não tem convicção de que seria a primeira a obter o título sem pular etapas na academia. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação da UFG, o professor doutor Fábio Moreira Costa explica que, normalmente, aos 24 anos o aluno ingressa no mestrado. “Não acredito que ela seja a mais jovem em todas as áreas do conhecimento, mas certamente é da computação.” Em algumas instituições brasileiras, como o Instituto de Matemática Pura Aplicada (Impa) e Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), não é incomum um aluno concluir o doutorado com menos de 20 anos, sem passar pelo mestrado.

O POPULAR questionou a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que é vinculada ao Ministério da Educação, sobre o ranking de idade entre os doutores brasileiros, mas não obteve retorno. A Plataforma Sucupira, sistema que reúne informações utilizadas na padronização do Sistema Nacional de Pós-Graduação, ligada à Capes, também não menciona o dado. Pró-reitor de Pós-graduação da UFG, o professor doutor Laerte Ferreira garante que Nattane é a aluna mais jovem a concluir um doutorado na instituição.

Família acompanhou defesa de tese pela internet

Em tempos de isolamento social, Nattane Luiza não pode contar com a presença física de pessoas que fizeram diferença em sua trajetória no dia da defesa de sua tese. Familiares e amigos acompanharam pela internet a sessão que durou mais de três horas, com direito a queda de energia. Ao ouvir que tinha sido “aprovada por unanimidade”, ao lado do marido Renato Júnior, colega de área que ela conheceu no mestrado, Nathane leu uma poesia em agradecimento a todos. “Aos 24 anos me tornei doutora, em uma jornada árdua e encantadora, de muitos artigos eu fui autora. Essa trajetória durou nove anos, a menina que iniciou a faculdade cheia de planos, hoje é mulher, professora e pesquisadora.”

Naquele dia, em Palmelo, Barsanulfo e Eliana foram acariciados à distância pela filha. Em uma placa encaminhada pela “doutora em Ciência da Computação, Nattane Luiza da Costa”, ficou eternizada a gratidão: “Esse título é em homenagem a vocês, que nunca mediram esforços para me ajudar e guiar em qualquer situação da vida, seja em aspectos acadêmicos ou não. Amo vocês. Obrigada, obrigada, obrigada!”

Barsanulfo conta ao POPULAR que, como professor da rede pública, não tinha condições de pagar escola privada para os filhos. “Sempre os incentivei a estudar, a entender, a caminhar com as próprias pernas”. Ele, que é autor de um livro sobre a história de Palmelo e presidente do Centro Espírita Luz da Verdade, em torno do qual a cidade nasceu, afirma que ele e a mulher Eliana estão felizes com o caminho escolhido pelos filhos. “Espero que eles utilizem o conhecimento em benefício da humanidade.”