Todos isolados na Itália, no coração de Roma, Milão ou na Cascina (Chácara) em que me encontro, na RM de Milão. O isolamento me conecta com sentimentos mais individuais e também com o que o motivou: uma pandemia que atinge a todos, de maneiras distintas, mas a todos nós habitantes da Terra. Achava histeria, ainda em janeiro, que todos os boletins de notícias se iniciassem com o “coronavírus”. Agora não há boletins, relatórios, análises que supram a minha necessidade de informação.

No Google, “coronavirus Italia”, começo pela OMS, passo pelos meios de comunicação italianos e brasileiros...nada é o bastante. Para lidar com a ansiedade, cozinho devagar, com atenção à textura, cor e possibilidades de sabor de cada alimento. Penso na quantidade, na possibilidade de faltarem, penso em quem tem o medo da fome não só em pandemias, mas em cada dia da vida. Penso em quantas vidas serão afetadas por esta doença e sobretudo pela gestão da crise (econômica, social, ambiental e de princípios) já latente, mas agravada por ela.

Um dos meus privilégios foi sempre contar com uma rede de proteção poderosa, família e amigos que não conseguiria definir por palavras. Na Itália esta sorte me acompanhou. Um italiano meu xará, que foi meu colega na UFG, adotou a mim e aos meus filhos desde que chegamos. Pedi que me dissesse algo sobre este momento, sabia que sua sensibilidade e inteligência me situariam melhor. Ele não pensou em si ou na própria família. Informou-me sobre as fragilidades econômicas e sociais que já afetavam a Itália e disse que poderia ser uma oportunidade para refletirmos mais profundamente diante de “mais uma grande humilhação para o antropocentrismo narcisista” .

Enviou um vídeo com a palestra de um filósofo italiano, Telmo Pievani, que trata esta crise sob uma perspectiva evolucionista, ao chamar a atenção para como a proximidade entre a espécie humana e animais, em virtude da degradação ambiental provocada por nós, torna não só esta, mas outras pandemias prováveis, posto que o vírus “obedece a um imperativo Darwiniano primordial: multiplicar-se”. O antídoto? Nossa condição de seres racionais para nos opormos a ele (vírus) com a pesquisa científica, higiene, progresso social e proteção ambiental.

Volto novamente ao Brasil: uma MP (alterada por ainda sermos uma democracia) que deixaria trabalhadores por quatro meses sem salário, corte de bolsa família (sobretudo no Nordeste e impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pois não foi fechado), além do governo buscar o STF contra a ampliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Ciência? Depois de severo corte em bolsas da Capes em 2019, o Ministério da Educação impõe em 2020 novos critérios, que afetarão até mesmo programas com nível de excelência. Quanto ao meio ambiente, os reiterados ataques às comunidades tradicionais, vista grossa (quando não incentivo) às queimadas e a liberação frenética de agrotóxicos dispensam maiores comentários.