“Prefiro que o meu filho continue atrás das grades a vê-lo livre, com o risco de desmontar toda a família e ainda ser morto pelos outros.” O desabafo é de um pedreiro de 39 anos, morador de Senador Canedo, na região metropolitana da capital, que não acredita na recuperação do seu primogênito, um adolescente de 17 anos, viciado em crack. Em novembro do ano passado, o homem chegou a acorrentar o garoto, para que ele não se afundasse mais nas drogas. Por causa dessa atitude, a Polícia Civil indiciou o pai, mas o Ministério Público Estadual (MP) divulgou ontem pedido feito à Justiça para arquivamento de inquérito sobre possíveis maus-tratos contra o filho viciado.

 
O adolescente começou a usar maconha há três anos e, rapidamente, caiu no mundo do crack. Criado com a avó desde o seis meses de idade, “o menino educado, respeitador e carinhoso”, viu sua adolescência ser consumida pelas drogas e, para alimentar o vício, furtou celulares, TVs, bicicletas, dinheiro, tanto da família quanto dos vizinhos, afirmou o pai. Depois, a compulsão fez o adolescente ficar agressivo e enfrentar os parentes, anestesiado pelo efeito das drogas.
 
Sem saída, o pai diz que buscou ajuda no poder público, mas em vão. “Meu filho já estava quebrando tudo e eu nunca consegui uma ajuda para ele”, conta o pedreiro. “Levamos ele (o adolescente) para várias casas de internação, mas não adiantou nada”, acrescenta a avó do menino. Ele não mantém contato com a mãe.
 
Desesperado, o pai acorrentou o garoto, em novembro do ano passado, dentro da casa da avó. A tentativa, disse o pedreiro, era para tentar livrar o filho das drogas. O adolescente ficou dois dias preso na residência, em meio à aflição da família para lhe arrancar do vício. “Eu acorrentei meu filho para não ver a minha família toda destruída. Ele chegou a uma situação que perdemos o controle”, lamenta o pai, que foi denunciado pelo conselho tutelar.
 
A polícia do município entendeu, na época, que o homem praticou maus-tratos contra o próprio filho. Todavia, a promotora de Justiça Marta Moriya Loyola enviou, na sexta-feira, pedido à Justiça, em defesa do pai. Para ela, a situação revela “intenso sofrimento” e o homem “se viu forçado a adotar medida extrema de encarceramento de seu filho, para que este ficasse impossibilitado de ter acesso ao crack, bem como de protegê-lo do contato com traficantes que, anteriormente, tinham atentado contra sua vida”, argumenta, no requerimento.
 
O adolescente está apreendido por ter assassinado, com um facão, um homem de 48 anos, no fim de agosto. A família não soube informar a motivação do crime, mas acredita que pode ter envolvimento com as drogas. Em meio a tantas brigas, o garoto também já perdeu um olho.
 
Para o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Eduardo Mota, o caso exemplifica o que ele denomina de precariedade no atendimento aos dependentes químicos em todo o Estado. “Situações de violência como essa vão se proliferar, enquanto não houver medidas mais incisivas para responsabilizar o poder público. O Judiciário ainda não divulgou previsão para analisar o pedido da promotora de Justiça.