Há pouco mais de um mês eu e meu genro medíamos cada palmo de Bérgamo, Pavia, Parma, Binasco, Milão enquanto minha filha ficava na faculdade estudando com seus colegas. Ao fim do dia tínhamos muitas histórias para trocar. Nós, sobre o que vimos; ela, sobre sua nova vida, convivendo com pessoas de 35 nacionalidades diferentes.

Tínhamos planos para a Páscoa com minha mãe, irmã, e sobrinha que viriam nos visitar. Hoje estamos as duas em casa, na esperança de que os contágios e as medidas restritivas se abrandem. Domingo, dia 22 de março, a Itália chegava a 59.138 casos e 5.476 mortos, apenas um mês e um dia depois do primeiro diagnóstico por contágio local. Duas semanas depois das restrições na Lombardia, em seguida estendidas a todo o país, pela primeira vez havia um ligeiro decréscimo na tendência de contágios e mortes, mas nada a se comemorar.

Quanto às medidas, acabo de receber o decreto que proíbe que saiamos de nossos “comunes”, o que é especialmente complicado na região em que vivo (Parco agricolo sud Milano) composto por 61 pequenos comunes, todos interligados. É comum ir ao supermercado a 13 km de casa e passar por três comunes no trajeto. Ir ao supermercado será agora uma aventura ou talvez uma transgressão.

É curioso que quando eu me sentia sobrecarregada em Goiânia (tive diagnóstico de Burnout) imaginava que quando tivesse mais tempo eu me cuidaria, leria romances que há tempos gostaria, retomaria hábitos perdidos. O hábito que retomei foi chupar compulsivamente balinhas de caramelo e comer bolachas de chocolate além de deixar a cabeça livre para pensar, já que não me cabia mais tomar decisões.

Foi adiada a nossa mudança para a casa com água potável, não sabemos ao certo se o semestre da minha filha irá se concluir virtualmente, os próximos passos não dependem de nós. Isso aprisiona e liberta, nos limita, mas nos livra do temor de fazermos escolhas erradas - não as temos.

Essa suspensão aqui me conecta mais fortemente ao Brasil, mantenho contatos com pessoas de diferentes classes, cores e profissões. Tantas vulnerabilidades, algumas individuais, mais fáceis de controlar, mas outras, estruturais, históricas.

A beleza da sociologia está justamente em oferecer ferramentas para que possamos compreender em que medida as questões estruturais limitam, moldam, possibilitam escolhas, ações, sentidos individuais. Esta pandemia parece ter vindo para que tenhamos a oportunidade de refletir sobre nosso modelo predatório do ponto de vista ambiental e humano, mas este é um assunto que requer mais linhas.